Do the green thing

Biohidrogénio

Biohidrogeneo

Biohidrogénio em debate no Instituto de Biologia Molecular e Celular no Porto Reunião científica internacional faz o ponto da situação na investigação do biocombustível do futuro.

2008-02-27. Representantes de equipas de investigação de 30 países, na área da produção de biohidrogénio, vão estar em Portugal no próximos dias para fazer o ponto da situação de trabalhos conduzidos há mais de um ano para encontrar mais organismos e sistemas “in vitro” capazes de produzir hidrogénio. A reunião científica “Task 21: BioHydrogen”, da Agência Internacional de Energia (IEA), começa hoje no Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC), no Porto. De acordo com a organização do evento, o objectivo é estabelecer colaborações entre os projectos de investigação internacionais e trocar conhecimentos científicos. — Resto da notícia em Ciência Hoje.

Sol, mar e vento!

Parque Solar em Sanlucar la Mayor, Sevilha, Espanha
Parque Solar em Sanlúcar la Mayor, Sevilha, Espanha

A população mundial cresce ao bonito ritmo de 1% ao ano. Isto quer dizer, que hoje somos cerca de 6,7 mil milhões de criaturas, e em 2050, se não ocorrer nenhuma catástrofe de proporções bíblicas, seremos 9 191 287 000 de almas penadas. Outro dado curioso é o do nosso consumo energético, o qual tem vindo a crescer 2% ao ano. Consumimos hoje o equivalente a um motor com uma potência de 15 TWatt (1), mas se nada mudasse na actual inércia dos negócios, o motor energético de 2050 teria que ter uma potência de 30-35 TWatt. A boa notícia, dada há dias pelo Nobel da Física, Carlo Rubbia (2), é que bastaria um quadrado de areia no deserto do Saara, com 200×200 Km, para satisfazer tão descomunal necessidade energética. A má notícia é que poucos acreditam na possibilidade de reconverter a actual dependência das energias fosseis e não renováveis (petróleo, carvão, gás natural e nuclear), que era em 2005 da ordem dos 86%, para valores capazes de travar os efeitos nefastos das emissões antropogénicas de CO2 para a atmosfera.

Segundo Rubbia, a predominância dos fósseis na produção de energia deverá prosseguir, traduzindo-se num agravamento nas emissões com efeito de estufa, na estabilização da energia nuclear e num pequeno incremento das energias renováveis. Em 2004 era esta a distribuição das diversas origens da energia produzida pelos humanos:

Energias não renováveis: 86,8%

  • Petróleo: 34,3%
  • Gás natural: 20,9%
  • Carvão: 25,1%
  • Nuclear: 6,5%

Energias Renováveis: 13,1%

  • Combustíveis e resíduos renováveis (biomassa, cana de açúcar, etc.): 10.6%
  • Hidroeléctricas: 2,2%
  • Outras
    • Geotérmica: 0,414%
    • Eólica: 0,064%
    • Solar: 0,039%
    • Ondas: 0,0004%

Estes números dão uma ideia do caminho a percorrer, da dimensão dos obstáculos e sobretudo da inércia que será necessário vencer para corrigir a situação actual. Quando os governos europeus falam das suas ambiciosas metas ecológicas — chegar aos 20% de energias obtidas de fontes primárias renováveis (vento, água, sol e biomassa), até 2020 — é bom percebermos todos que se trata de uma transferência de apenas 6,9% em 12 anos, quando a taxa de crescimento anual do consumo à escala planetária é de 2%. Algo me diz que estamos em presença de uma vontade política desgraçadamente ridícula face ao desafio que a humanidade tem pela frente.


Pico carbónico, sim ou não?

Embora o petróleo líquido e o gás natural devam atingir o pico produtivo mundial no intervalo compreendido entre 2008 e 2018 (3), as reservas de carvão (5000 a 20.000 GTon), de óleos extra-pesados (tar sands) e de xistos oleosos (oil shale) seriam, segundo Carlo Rubbia, mais do que suficientes para alimentar o consumo energético mundial, à actual taxa de crescimento, por várias centenas de anos!

Na verdade, não é bem assim. Para que tal fosse viável, seria necessário que o ENROI (Energy Net Return on Energy Invested) da produção das variantes pesadas da energia fóssil (oriundas do petróleo de profundidade ou situado em zonas geladas, das areias betuminosas e dos xistos oleosos) não tornasse os necessários investimentos gigantescos que estão em causa em tais operações, muito arriscados e de rentabilidade duvidosa (como as contas até agora feitas demonstram ser). Por outro lado, mesmo conseguindo optimizar o ENROI, existem as maiores dúvidas sobre quem poderia pagar o preço final dos combustíveis e produtos derivados de hidrocarbonetos tão caros.

Os efeitos das emissões de CO2 duram quanto tempo?

Carlo Rubbia, dando de barato que há suficiente energia fóssil, e suficiente ciência e tecnologia para aproveitá-la (um mito comum e bem moderno), chama no entanto a atenção para um facto ainda mal percebido pelos poderes de decisão e longe da consciência social dominante. O facto é este: a produção antropogénica de CO2 terá efeitos sobre o clima da Terra durante centenas de milhar de anos!

A sobrevivência do plutónio é da ordem dos 25 mil anos. Mas a sobrevivência média do CO2 é de 30-35 mil anos. 1 a 33% das partículas emitidas agora perderão a sua actividade daqui a mil anos; 10 a 15% só daqui a 10 mil anos; e 7% das mesmas levarão 100 mil anos a “morrer”!

O degelo da calota polar e da Gronelândia, muito mais rápido do que o previsto, deriva em boa parte dos efeitos nefastos dos milhões de toneladas de CO2 lançados diariamente na atmosfera pela acção humana. O risco de o nível do mar subir entre 7 e 15 metros nalgumas zonas costeiras é cada vez mais plausível. A concretizar-se, por exemplo, na região chinesa do delta do rio YangtzeXangai, Hangzhou, Nanjing –, onde vivem mais de 90 milhões pessoas, haverá uma catástrofe de proporções inimagináveis.

A redução até 2050 de metade das actuais emissões de CO2, proposta pela União Europeia, numa conjuntura habituada ao crescimento contínuo da produção e do consumo energético, vai ser um desafio tremendo, para o qual as actuais democracias populistas, muito corrompidas pela promiscuidade que mantêm com os sectores económicos-financeiros, invariavelmente atrelados a metas de rentabilidade e lucro fácil a curto prazo, não se encontram preparadas.

Passar de 6,5 GTon de emissões de CO2 provenientes do uso de energias fósseis (80% de toda a energia produzida/consumida pelos humanos), para 3,2 GtonC, quando os cenários da economia convencional continuam a apontar para um patamar de emissões, em 2050, de 15 GtonC, revela bem a dimensão trágica da verdadeira revolução energética que terá que ser realizada se quisermos sobreviver.

Blue Men Group Tackles Global Warming

O Sol é tudo. Mas teremos tempo para inverter o actual curso suicida?

Segundo Carlo Rubbia, 15 TWatt de energia primária fornecida pelo Sol (equivalente ao actual consumo energético mundial) é a energia recebida por apenas 0,13% dos desertos solares do planeta, qualquer coisa como um quadrado com 200×200 Km2 no Saara! Onde está então a dificuldade energética, pergunta o físico nuclear do CERN e prémio Nobel?!

O problema científico e tecnológico resume-se, na sua opinião, a privilegiar a energia solar termoeléctrica, baseada em sistemas altamente eficientes de concentração da energia solar (Concentrating Solar Power – CSP), acoplados a receptores térmicos (sal, óleo, etc.) que acumulam calor a altas temperaturas, na ordem dos 450-650 ºC. Este calor serve, ou para acionar motores térmicos (do tipo Stirling e Brayton), ou para ferver água a alta pressão em geradores de vapor, que farão rodar as turbinas electromagnéticas.

Entre as tecnologias CSP actualmente em operação (a tecnologia solar mais barata), contam-se as Torres de Energia Solar, os Discos Solares e os Reflectores cilíndricos parabólicos. Outra tecnologia solar disponível (sobretudo para pequenas instalações, ou localizadas longe das redes de distribuição eléctrica) é a dos painéis foto-voltaicos, que convertem directamente a energia solar em energia eléctrica, embora com custos superiores e menor rendimento do que a tecnologia CSP. Para uma síntese sobre este tema, ler o artigo da Wikipedia.

O governo português está disposto a financiar a Rede Eléctrica Nacional para que esta compre electricidade produzida por particulares em regime de microgeração, a 65 cêntimos por kilowatt hora (kWh), um valor seis vezes superior aos 10,8 cêntimos que actualmente pagamos em casa. Este preço, para além dos incentivos fiscais e financeiros na aquisição dos equipamentos e instalação dos micro-geradores eólicos, foto-voltaicos e solares térmicos, destinam-se a distribuir o esforço de investimento na reconversão do paradigma energético. Mas pode igualmente comportar uma intenção indesejável: a de assegurar o controlo monopolista da distribuição da energia, impedindo, pela via legislativa, que a produção de energia solar barata possa vir a converter-se numa fonte de rendimento melhor distribuída, por exemplo, pelas comunidades locais e municípios. Vale pois a pena estudar em pormenor o problema das redes de distribuição, reivindicando, não apenas o direito à micro-geração, mas também o direito à criação de redes privadas, comunitárias, e municipais de distribuição eléctrica, sob supervisão das entidades responsáveis pela eficiência e segurança dos sistemas e redes elétricas.

Prevê-se que a produção de energia solar termoeléctrica (CSP) baixe progressivamente de preço ao longo das próximas duas décadas, devendo custar cerca de 2 cêntimos por kWh em 2020. Isto é, 1/5 da actual factura energética doméstica! Se pensarmos que por essa altura já parte significativa dos meios de transporte individual usará mais energia eléctrica do que combustíveis fósseis, adivinha-se as proporções gigantescas da revolução energética em curso. Para além do direito à micro-geração individual, familiar e comunitária de energias sustentáveis, o grande desafio colocar-se-à brevemente no terreno da eliminação dos actuais monopólios e oligopólios de distribuição, e em geral na des-concentração democrática das redes eléctricas.

A Espanha tem já uma Plataforma Solar comercial a funcionar em Sanlúcar la Mayor, Sevilha (ver vídeo noticioso), cinco centrais a iniciar até 2010 e mais 13 em fase de planeamento, num total de 19 centrais solares baseadas predominantemente na tecnologia termoeléctrica (CSP), com uma capacidade a instalar de 1,5 GW.

Barragens para quê?

A pergunta que fazemos é simples: qual o impacto real das 10 barragens hidroeléctricas cuja construção o governo intempestivo de José Sócrates, e do seu caricato ministro da Economia, apresentou como decisão inabalável? Não poderíamos ter melhores resultados seguindo o caminho avisado da Espanha? Ao contrário dos parques solares, as barragens produzem gases com efeito de estufa, atacam a biodiversidade, fragilizam os estuários dos rios, arrasam paisagens únicas, expropriam os pequenos a favor de oligopólios, destroem actividades económicas pré-existentes, deslocam comunidades humanas, comprometem actividades económicas de longa duração (como o turismo bem planeado). Por outro lado, o emprego que geram é meramente pontual e dura apenas o tempo das obras de construção. A única vantagem que parece subsistir é a da retenção de água doce e a sua potencial contribuição para a mitigação dos períodos de seca. Mas a que preço? E para que fins, realmente? Aliás, no caso das previstas pequenas barragens anunciadas repetidamente por José Sócrates, tratando-se de afluentes de rios maiores, eles próprios já regularizados por barragens, até este argumento residual redunda em manifesta falácia! Sobra, talvez, uma única justificação para a teimosia política: a velha confraria do betão que formatou ao longo destes últimos 30 anos o exercício da política à portuguesa!

Não é de barragens que precisamos para dar negócio aos empreiteiros e trabalho ao país. Mas sim de outro tipo de obras com efeitos multiplicadores muito mais amplos e duradouros. Como por exemplo, a reformulação audaciosa da rede ferroviária nacional e a sua interligação à rede espanhola, nomeadamente nos segmentos da Alta Velocidade e Velocidade Elevada. Como por exemplo, o lançamento de uma Nova Reforma Agrária nacional visando transformar Portugal num importante produtor especializados de bens agrícolas com elevado Valor Ecológico Acrescentado. Como por exemplo, a reconversão da maioria das nossas cidades em eco-cidades. Como por exemplo, a defesa e promoção da biodiversidade do território. Como por exemplo, a promoção de uma nova economia do mar.

Post-scriptum — (26-02-2008) Recebi entretanto duas referências que merecem ser aprofundadas, para complemento do quadro traçado neste artigo:

  1. por um lado, a importância que ultimamente tem vindo a ser dada ao petróleo do Árctico, cujo acesso seria uma consequência do derretimento de extensas áreas daquela zona polar!
  2. outra, é a relevância dada num relatório europeu recente ao hidrogéneo, bem como o projecto da primeira instalação industrial de produção de electricidade a partir de hidrogéneo no Abu Dhabi.

    La recherche européenne démontre que l’hydrogène pourrait permettre de réduire la consommation de pétrole dans les transports routiers de 40% d’ici à 2050.

    Bruxelles, 25 février 2008.
    Un projet scientifique financé par le programme de recherche de l’UE a conclu que l’introduction de l’hydrogène dans le système énergétique réduirait la consommation totale de pétrole des transports routiers de 40% d’ici 2050. En prenant la tête du marché mondial des technologies de l’hydrogène, l’Europe peut ouvrir de nouveaux débouchés et renforcer sa compétitivité. Mais l’analyse indique également que la transition ne se fera pas automatiquement. Des obstacles importants doivent d’abord être surmontés, tant du point de vue économique et technologique qu’institutionnel, et il faut agir dès que possible. Le projet HyWays associe des entreprises, des instituts de recherche et des agences gouvernementales de dix pays européens. À l’issue d’une série de plus de 50 ateliers, le projet a abouti à une feuille de route pour l’analyse des incidences potentielles, sur l’économie, la société et l’environnement de l’UE, du recours à grande échelle à l’hydrogène, sur le court et le long terme, assortie d’un plan d’action indiquant les modalités à suivre pour concrétiser ce programme. Le rapport est publié au moment où les États membres doivent approuver un nouveau partenariat de recherche entre secteurs public et privé, d’un montant de 940 millions d’euros, pour le développement de la filière hydrogène et des piles à combustible. — in Press Releases Rapid.


NOTAS

  1. Um Tera Watt é o mesmo que um bilião de Watt, ou um milhão de milhões de Watt (também representado assim: 10E12Watt ou 10^12 Watt).
  2. Carlo Rubbia, “The great Energy transformation – QM 2008 Inaugural Session”, 2008 (PDF).
  3. Giant Oil Fields – The Highway to Oil: Giant Oil Fields and their Importance for Future Oil Production. Fredrik Robelius. 30-03-2007. (PDF)

OAM 323 25-02-2008, 03:06

Campanha “Douro Limpo”

Seminário da UTAD reclama cidadania activa para o Alto Douro Património Mundial

Encontro encerra Campanha “Douro Limpo”

2008-02-26. Desenvolver uma consciência ambiental individual, colectiva e junto das empresas, que contribua para a mudança de atitudes e comportamentos no Alto Douro Vinhateiro (ADV), património mundial. Este era um dos objectivos da Campanha “Douro Limpo” que termina na próxima quinta-feira, 28 de Fevereiro, pelas 9h30 com o Seminário “Cidadania Activa e Responsabilidade Social no Alto Douro Vinhateiro”. O encontro que visa alertar para a necessidade de uma cidadania activa e atenta à dimensão ambiental, vai decorrer na Aula Magna da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), com divulgação dos trabalhos desenvolvidos durante a iniciativa de sensibilização e educação ambiental no ADV. — Texto integral.

Almada Nascente

Almada Nascente
Almada Nascente – Atkins, Richard Rogers Partnership e Santa-Rita Arqtºs.

Rive Gauche?

Almada Nascente, Cidade da Água

Devolver o Tejo aos cidadãos e reabilitar uma zona de antigos estaleiros, desenvolvendo o conceito de cidade de duas margens, são alguns dos objectivos da Câmara Municipal com a elaboração do Plano de Urbanização da Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada, adjudicado ao consórcio internacional constituído pela WSAtkins, Santa-Rita Arquitectos e Richard Rogers Partnership, no seguimento de Concurso Público Internacional.

Com o Projecto Estratégico Almada Nascente a autarquia tem como objectivo revitalizar uma vasta área da cidade, privilegiando a sua reaproximação ao rio, com vista à criação de uma frente urbana ribeirinha.

A Câmara Municipal pretende criar uma cidade sustentável, privilegiando a arquitectura bioclimática, a utilização racional da energia e da água, o uso dos transportes públicos, a fruição dos espaços públicos e das zonas verdes.

O plano abrange uma área de 115 hectares, entre Cacilhas e a Cova da Piedade. Inclui os 50 hectares de terreno ribeirinho outrora ocupados pelo Estaleiro Naval da Lisnave, na Margueira, freguesia de Cacilhas.

Principais destaques:

Terminal de Cruzeiros
Marina
Museu do Estuário
Museu Nacional da Indústria Naval
Residências universitárias
Parque Tecnológico
Centro de Ciência e Tecnologia/ Parque das Descobertas

(do sítio web municipal sobre este ambicioso projecto)

Defendo desde 1986 (“Ex-Mater”), e 2005 (o Grande Estuário), a necessidade de um projecto ambicioso na Margem Sul do Tejo, capaz de fazer a velha Lisboa cruzar o rio em direcção a Sul. A razão é simples: para Norte, como para Oriente e Ocidente já quase tudo foi feito, quase sempre mal, bloqueando o crescimento harmonioso da capital e principal cidade-região do país.

Lisboa precisa de expandir o seu centro, mas para onde? Poderá aumentar ligeiramente a densidade da zona ribeirinha, recuperando a zona entre Santa Apolónia e Nova Moscavide (Expo), mas tal não lhe permite enfrentar o desafio de transformar a região dos grandes estuários (Tejo e Sado) num dos principais centros económico-culturais da Europa, para o que existem condições extraordinariamente favoráveis: território e clima invejáveis, paisagens naturais, urbanas e humanas únicas, e a oportunidade histórica de tornar Lisboa na indiscutível capital atlântica da União Europeia e numa das principais plataformas do diálogo intercontinental (sem o que a actual civilização acabará por extinguir-se num holocausto nuclear.)

Defendo por isso que o centro de gravidade de Lisboa passe a situar-se a meio da linha que une o Terreiro do Paço a Cacilhas, e que a partir desse centro, novos círculos concêntricos sejam traçados tendo em vista concluir até meados deste século a obra de transformar esta cidade-região numa das principais megalopolis europeias. Cinco a seis milhões de habitantes, com gentes oriundas dos quatro continentes, numa matriz pós-industrial tecnologicamente evoluída, diversificada, culta e criativa. Uma metrópole pós-carbónica solidária, pacífica e pioneira no desenvolvimento de modelos avançados de sustentabilidade económica e de cooperação democrática.

Precisamos de fortalecer sem demora, o eixo Lisboa-Madrid-Barcelona, bem como o eixo Lisboa-Corunha (que passa pelo Porto, Vigo, Pontevedra e Santiago). Precisamos de ligar convenientemente o Porto, que tem todas as condições para ser a capital económica do Noroeste peninsular, a Aveiro e Salamanca, como precisamos de conectar o porto de Sines à Extremadura espanhola. Precisamos de encurtar a distância entre Lisboa e Sevilha, por Vila Real de Santo António, mas também por Beja. A crescente integração económica da Península Ibérica, parte da integração europeia alargada (que um dia irá de Lisboa a Istambul e a Kiev… ou mesmo Moscovo), exige boas redes de comunicações e igualdade absoluta de oportunidades para todos os cidadãos e para todo o tipo de empresas e actividades económicas. Ora é nesta perspectiva estratégica ampla e arejada de fantasmas, que operações como a que se desenha para Almada fazem ou não sentido.

Olhando para o esquema, diria que o principal e mais difícil foi seguramente tomar a decisão que foi tomada. O passo decisivo já está e agora há que caminhar em frente, limando obviamente algumas arestas, por forma a não deixar a ideia inicial resvalar, como sucedeu e se previu que sucedesse na zona da Expo, para mais uma atabalhoada operação de especulação imobiliária. Os equipamentos culturais previstos parecem-me todos de fachada ou inviáveis. Uma zona ecológica integrada, para habitação, trabalho e lazer, parece-me uma solução óbvia. Destinada a pessoas com rendimentos médios e altos, e empresas de prestígio, com forte imagem criativa e tecnológica, não vejo como possa ser doutro modo. Agora, falta-lhe ainda uma grande referência cultural que leve os cruzeiros a querer atracar por ali, e sobretudo leve as gentes desses cruzeiros, mais a população flutuante que um dia chegará à Rive Gauche de Lisboa, em TGV ou de avião, a demandar obrigatoriamente a Almada Nascente. Eu proponho (de borla) um novo conceito arquitectónico e museológico para aquele lugar. Trata-se de uma Biosfera, quer dizer, uma estrutura ecológica, simultaneamente edifício em terra firme e ilha flutuante, cápsula de experiências vivas sobre a mãe-terra e o futuro da humanidade, laboratório simétrico do Oceanário, em suma, um novo e irresistível símbolo cultural do Grande Estuário.

Como não disse mas poderia ter dito o jovem José Manuel Durão Barroso, a ousadia alimenta os heróis.

Quem não viu Lisboa, não viu coisa boa — dizem carinhosamente os galegos –, porque ela é a menina dos olhos da península. Que os políticos não se esqueçam disto!

OAM 266, 23-10-2007, 18:06

A tragédia dos biocombustíveis

Girassol

A OCDE, mais célere do que é costume, alerta para a inevitável tragédia dos biocombustíveis.

“Government support for biofuels will cause food shortages and lead to the destruction of natural habitats – while making little impact on climate change, warned the Organisation for Economic Cooperation and Development (OECD), delivering a blow to EU plans to obtain 10% of its transport fuel from plants by 2020.

Even in the ‘best-case scenario’, biofuels will only be able to achieve a 3% reduction in energy-related CO2 emissions by 2050, thus failing to reduce petroleum fuel consumption, states a new report by the OECD.

The study, which is to be presented to ministers and government experts from the OECD’s 30 member states on 11-12 September, adds that even this small benefit would come at a huge cost because “without subsidies, most biofuels cannot compete on price with petroleum products in most regions of the world”.

It explains that in the US, for example, around $7 billion is spent each year on support to ethanol, so that each tonne of carbon dioxide that is avoided in fact costs over $500 in taxpayers’ money. In the EU, the cost could be up to ten times higher, add the authors.

The report criticises current government policy bias towards biofuels, saying that subsidies and tariff-protection measures will drive land owners to divert land from food or feed production to the production of energy biomass, thereby driving up food prices.”

Como já deveria ser do domínio público comum, se as indústrias agro-energéticas pagarem mais por um litro de óleo de girassol, de colza, de palma, de soja, de milho, de beterraba açucareira, de mamona, de babaçu, de trigo ou de arroz (!), para fazer um qualquer biocombustível “verde”, do que as indústrias agro-alimentares, pelo mesmo litro de óleo, teremos forçosamente, e a passos largos, um planeta transgénico a desenhar OGMs altamente produtivos, resistentes e bio-assassinos especializados na produção de combustíveis biológicos. Para que tal aconteça, será preciso que milhões de pessoas morram à fome, por manifesta incapacidade de pagar os altos preços dos bens alimentares mais básicos, como o pão e as farinhas em geral, a água, o açucar e a proteína animal mais barata do mercado: a carne de frango. Este fenómeno já começou a criar sérios problemas sociais em países como o México, problemas sociais esses que tenderão a espalhar-se como um verdadeiro rastilho assim que a actual crise económica mundial der lugar ao dominó das falências em massa de empresas e instituições financeiras.

Na Europa, se não travarem a Monsanto, a Dupont, e em greal os lóbis da biotecnologia agressiva junto da União Europeia, bem como os discursos mediáticos patéticos dos pseudo-cientistas corruptos, os OGMs serão empregues em larga escala no aumento da produtividade dos espécies oleaginosas destinadas, quer à produção de rações para a pecuária e aquicultura, quer para a produção de biocombustível.

Veja-se o que está a acontecer em Espanha com os milhos transgénicos, com a colza e com o girassol. Tendo os lunáticos ministros que temos na agricultura, na economia e no meio-ambiente, não tardaremos mais de um ou dois anos a importar alegremente a receita espanhola do desastre ecológico mais sério para que a península ibérica está a caminhar: a destruição dos seus solos agrícolas em consequência da exploração intensiva dos mesmos, não em nome da vida e das necessidades humanas, mas apenas da especulação bolsista e da corrupção.

O governo português estabeleceu a incorporação 10% de biocombustíveis na gasolina e no óleo diesel até 2010, uma meta que é quase o dobro dos 5,75% definidos pela União Europeia (UE). Porquê? Com que argumentos? De onde vem a matéria-prima?

Tanta coisa que a malta do Bloco de Esquerda poderia discutir em vez de se auto-consumir no albergue espanhol do seu passado jurássico.

Post scriptum: sobre este mesmo tema vale ainda a pena ler o “OECD-FAO Agricultural Outlook – 2007-2016”, de que transcrevo alguns extractos do sumário em português.

OECD-FAO Agricultural Outlook – 2007-2016
Perspectivas Agrícolas da OAA da OCDE: 2007-2016 (PDF)

• Actualmente, os preços fortes obtidos no mercado mundial por muitas matérias-primas de origem agrícola no comércio internacional devem-se, em grande medida, a factores de natureza temporária como sejam insuficiências na oferta relacionadas com a seca e baixas reservas. Mas alterações estruturais como o aumento da procura de matéria-prima para a produção de biocombustíveis e a redução de excedentes em consequência de reformas de políticas anteriores poderão vir a manter os preços acima dos níveis de equilíbrio históricos durante os próximos 10 anos.

• Preços das matérias-primas mais elevados são uma preocupação especial para os países em desenvolvimento que são importadores líquidos de alimentos, bem como para as camadas mais pobres das populações urbanas e trarão à mente o debate continuado sobre a questão de “comida versus combustível”. Para além disto, ao mesmo tempo que preços mais altos da matéria-prima para a produção de biocombustíveis suportam os rendimentos dos produtores dessa matéria-prima, eles implicam custos mais elevados e rendimentos mais baixos parapara os produtores que usam a mesma matéria-prima como forragem para animais.

• (…)

• O uso cada vez maior de cereais, açúcar, oleaginosas e óleos vegetais para satisfazer os requisitos de uma indústria de biocombustíveis em rápido crescimento é um dos principais factores impulsionadores da previsão. Durante o período de previsão, serão usadas quantidades substanciais de milho nos EUA, trigo e colza na UE e açúcar no Brasil para a produção de etanol e biodiesel. Isto está a manter os preços das culturas e, indirectamente através de custos mais altos para as forragens, também os preços dos produtos animais.

• Dado que na maior parte dos países das zonas temperadas a produção de etanol e de biodiesel não é economicamente viável sem apoio, uma combinação de tecnologias da produção, políticas relativas a biocombustíveis e preços do petróleo bruto diferentes daqueles que se presumem nesta previsão poderia levar a preços mais baixos que os projectados na previsão.

 oGE 17:30, 23:51, 17 Setembro 2007

Peak Everything

Richard Heinberg

by Richard Heinberg

During the past few years the phrase Peak Oil has entered the global lexicon. It refers to the moment in time when the world will achieve its maximum possible rate of oil extraction; from then on, for reasons having mostly to do with geology, the amount of petroleum available to society on a daily or yearly basis will begin to dwindle. Most informed analysts agree that this will happen during the next two or three decades; an increasing number believe that it is happening now – that conventional oil production peaked in 2005–2006 and that the flow to market of all hydrocarbon liquids taken together will start to diminish around 2010. The consequences, as they begin to accumulate, are likely to be severe: the world is overwhelmingly dependent on oil for transportation, agriculture, plastics, and chemicals; thus a lengthy process of adjustment will be required. According to one recent U.S. government-sponsored study, if the peak does occur soon replacements are unlikely to appear quickly enough and in sufficient quantity to avert what it calls “unprecedented” social, political, and economic impacts.

This book is not an introduction to the subject of Peak Oil; several existing volumes serve that function (including my own The Party’s Over: Oil, War and the Fate of Industrial Societies). Instead it addresses the social and historical context in which the event is occurring, and explores how we can reorganize our thinking and action in several critical areas in order to better navigate this perilous time.

Our socio-historical context takes some time and perspective to appreciate. Upon first encountering Peak Oil, most people tend to assume it is merely a single isolated problem to which there is a simple solution – whether of an eco-friendly nature (more renewable energy) or otherwise (more coal). But prolonged reflection and study tend to eat away at the viability of such “solutions”; meanwhile, as one contemplates how we humans have so quickly become so deeply dependent on the cheap, concentrated energy of oil and other fossil fuels, it is difficult to avoid the conclusion that we have caught ourselves on the horns of the Universal Ecological Dilemma, consisting of the interlinked elements of population pressure, resource depletion, and habitat destruction – and on a scale unprecedented in history.

Petroleum is not the only important resource quickly depleting. Readers already acquainted with the Peak Oil literature know that regional production peaks for natural gas have already occurred, and that, over the short term, the economic consequences of gas shortages are likely to be even worse for Europeans and North Americans than those for oil. And while coal is often referred to as being an abundant fossil fuel, with reserves capable of supplying the world at current rates of usage for two hundred years into the future, a recent study updating global reserves and production forecasts concludes that global coal production will peak and begin to decline in ten to twenty years. Because fossil fuels supply about 85 percent of the world’s total energy, peaks in these fuels virtually ensure that the world’s energy supply will begin to shrink within a few years regardless of any efforts that are made to develop other energy sources.

in MuseLetter #185 / September 2007
by Richard Heinberg