Category Archives: Protocolo de Quioto

regulação e legislação derivadas e afins

A bolha verde

Depois do petróleo, venha o CO2!

The Story of Cap & Trade from Story of Stuff Project on Vimeo.

“The overwhelming evidence is that the European Trading Scheme is retarding rather than driving emission drops.”Gar Lipow.

Por António Cerveira Pinto

Os mesmos ogres (Goldman Sachs) do Capitalismo suicida que imaginaram as bolhas especulativas, ou melhor dito, as pirâmides Ponzi conhecidas por dot-com bubble e Subprime mortgage crisis querem agora que os governos de todo o mundo se precipitem para a super bolha que promete acabar de vez com a civilização tal qual a conhecemos.

Com o cândido hino ao combate às alterações climáticas provocadas pelas emissões de gases com efeito de estufa, os ogres da Goldman Sachs já convenceram os piratas de grande parte dos governos mundiais a fazer duas coisas: atacar com novas taxas e auditorias energéticas (para inglês ver), a generalidade das populações e, por outro lado, criar um gigantesco mercado de especulação em volta da negociata dos créditos de CO2.

O resultado deste estratagema será, antes de a super bolha explodir (numa III Guerra Mundial?), aumentar ainda mais a actual produção de gases com efeito de estufa, sobretudo oriundos do carvão e do petróleo, mas reservando tal consumo apenas para os países, grupos económicos e classes sociais com capacidade económica para acompanhar a inflação exponencial do direito de poluir, em detrimento de quem não puder pagar no futuro os exorbitantes custos das licenças de emissão de CO2 cotadas em Wall Street, Frankfurt e Xangai.

Ainda vamos porém a tempo de desmascarar mais este embuste, fazendo nomeadamente recuar a União Europeia perante o que se afigura ser um crime de incalculáveis consequências!

O escândalo em volta do chamado Climategate (1) veio subitamente suscitar uma discussão pública, mais detalhada sobre as ameaças efectivas que pesam sobre a humanidade, fruto das asneiras que tem feito e deixado fazer, mas também mais exigente no que toca às medidas que os poderes públicos (e sobretudo privados!) têm vindo a tentar implementar sorrateiramente sob a capa de uma boa acção. O fiasco da presença abortada de Al Gore na Cimeira de Copenhaga é simultaneamente um aviso e uma oportunidade para discutirmos com mais seriedade e precisão a inadiável estratégia de mitigação dos efeitos nefastos do actual paradigma energético e de desenvolvimento e de descoberta e implementação de uma nova filosofia de vida para os humanos, que obviamente recupere a noção panteísta da indivisibilidade da Natureza!

REFERÊNCIAS

  1. Ler também o Guião anotado do filme (PDF) de Annie Leonard, The Story of CAP & TRADE
  2. “Curry: On the credibility of climate research”, by Steve McIntyre on November 22nd, 2009 (Climateaudit)
  3. “‘It’s Not the Kind of Thing Where You Can Compromise’ – Climate scientist James Hansen talks about global warming, Copenhagen, and his new book.” (Newsweek)
  4. “Climate Gate. Estes são os emails que incendiaram Copenhaga” (i)
  5. Durban Group for Climate Justice
  6. Tina Seeley, “U.S. Fossil-Fuel Subsidies Twice That of Renewables” (Update2) ,
    Sept. 18 (Bloomberg) — “Fossil fuels including oil, natural gas and coal received more than twice the level of subsidies that renewable energy sources got from the U.S. government in fiscal 2002 through 2008, the Environmental Law Institute said.”
  7. ‘Enron’s Other Secret’ : “The climate-change industry — the scientists, lawyers, consultants, lobbyists and, most importantly, the multinationals that work behind the scenes to cash in on the riches at stake — has emerged as the world’s largest industry. Virtually every resident in the developed world feels the bite of this industry, often unknowingly, through the hidden surcharges on their food bills, their gas and electricity rates, their gasoline purchases, their automobiles, their garbage collection, their insurance, their computers purchases, their hotels, their purchases of just about every good and service, in fact, and finally, their taxes to governments at all levels.”
  8. ‘How soon do we need to cut greenhouse gas emissions?,’ Grist, January 25 2009.
  9. Gar Lipow, “Cap-and-trade: filling up the political space that should be used for real solutions,” Grist, May 31, 2009
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Japão propõe redução de 50% nas emissões de GEE

24-05-2007. O primeiro ministro japonês propõe, como principal objectivo pós-Quioto, uma redução global de 50% nas emissões de gases com efeito de estufa (GEE). Para tal desafia os principais poluidores do planeta, a China, a India e os Estados Unidos, a assumirem as suas responsabilidades, ao mesmo tempo que defende o estudo e implementação de medidas de apoio (nomeadamente tecnológico) aos países pobres para que os mesmos consigam caminhar nesta mesma direcção.

O Japão, que é um dos países com melhor eficiência energética do mundo, propõe-se desempenhar um papel preponderante nos esforços de redução dos GEE.

No caso de Portugal, a sua extrema fragilidade económico-financeira, e sobretudo orçamental, coloca desafios quase inimagináveis neste domínio. Com que dinheiro vai adquirir os célebres créditos de CO2, enquanto não adapta a sua estrutura produtiva aos objectivos de Quioto e pós-Quioto incorporados na legislação europeia? O reforço do eixo Paris-Berlim, ou mesmo do triângulo Londres-Paris-Berlim, irá ter seguramente um forte impacto na adopção de medidas drásticas de mitigação das graves crises energética e ambiental que se aproximam a passos largos da Europa. Outro factor que poderá acelerar a imposição de medidas à escala global é a polémica discussão, iniciada a 17 de Abril último, no Conselho de Segurança da ONU, sobre a oportunidade de elevar a prioridade das discussões ambientais para o patamar das questões de segurança global (e dos países considerados individualmente). Boa parte das guerras actuais tem origem na disputa de recursos energéticos, na disputa da água e na disputa de terras aráveis. No entanto, pergunta-se, poderão os cinco membros do dito conselho discutir e decidir à margem dos restantes 180 estados da ONU? Quem sairia beneficiado de tal exclusão?

A única alternativa que a Portugal resta é mesmo mudar rápida e radicalmente alguns dos vectores do seu insustentável crescimento: obras públicas impensadas, especulação imobiliária, suburbanização, turismo de massas, sistema de transportes baseado na prioridade automóvel, emigração e despovoamento do território.

Ler notícias originais em:

BBC online

Green Room

Clima: o factor humano no novo relatório do IPCC

Bruxelas, 06-04-2007. A Conferência do Intergovernmental Panel on Clime Change (IPCC) acaba de publicar um extenso relatório, cuja conclusões foram objectos de intensas negociações políticas. Normalmente esta fraseologia significa que houve amaciamento de alguns dossiês mais quentes e/ou que dizem reespeito a alguns países em particular. Seja como for, as conclusões são muito preocupantes para o futuro imediato (2020) de milhares de milhões de pessoas. Normalmente os mais pobres das regiões mais pobres e os mais pobres de alguns regiões intermédias ou mesmo prósperas.

75-250 milhões de pessoas em África poderão ser atingidas pela falta água por volta de 2020
as colheiras poderão crescer uns 20% no leste e sudeste asiático, mas decrescer até 30% na Ásia central e do sul
a agricultura alimentada pela chuva poderá cair 50% em algumas zonas de África por volta de 2020
20-30% de toda a flora e fauna estarão sujeitas a rico acrescido de extinção se as temperaturas subirem entre 1,5-2,5 graus C
os glaciares e as coberturas de neve deverão diminuir, reduzindo a disponibilidade de água doce nos países alimentados por águas de degelo

O relatório afirma ainda que o aumento das temperaturas terão muito provavelmente origem na emissão de gases com efeito de estufa produzidos pelo homem.

Para chegar a esta conclusão, foram estudados 29 mil casos de observação concreta de mudanças ocorridas nos aspectos físicos e biológicos do mundo natural.

Crê-se que 89% destes casos são consistentes com o aquecimento mundial.

Desenvolvimento da notícia (BBC)
Relatório (PDF)

Portugal sustentável?

[25/01/07] O primeiro ministro português anunciou no parlamento que “em 2010, 45% de toda a electricidade consumida terá por base energia renovável. Esta meta colocará Portugal na linha da frente das energias renováveis, fazendo do nosso País, a par da Áustria e da Suécia, um dos três Países europeus que mais apostam nesta área.

Este anúncio traduz uma importante aceleração das políticas energéticas e de mitigação dos impactos nocivos das emissões de CO2 e de outras substâncias nocivas para a atmosfera. Trata-se efectivamente de um conjunto de medidas que poderão ter importantes efeitos reprodutivos na estagnada economia lusitana, e que por isso merece a maior atenção dos diversos actores da vida económica, social e política do país.

Vale pois a pena ler o essencial da comunicação de José Sócrates à Assembleia da República:

Energias renováveis

Em 2005, Portugal foi o País da União Europeia que mais cresceu na capacidade de produção de energia eólica. Em 2006 tivemos o segundo maior crescimento, tendo entrado em funcionamento 36 novos parques eólicos, o que significa um crescimento de 60% da potência instalada. E, para que fique bem evidente o ritmo deste crescimento, basta dizer que desde que o actual Governo entrou em funções já foi instalada mais potência eólica do que nos oito anos anteriores.

Mas não foi apenas na energia eólica que progredimos. Licenciámos 8 novas centrais de ciclo combinado. Lançámos 13 concursos para centrais de biomassa. Hoje mesmo, serão conhecidos os resultados das candidaturas para a produção de biocombustíveis. E está em construção a maior central solar do mundo, em Moura.

O Governo já tinha uma meta para 2010 muito exigente: 39% de renováveis. Com o ritmo que imprimimos, estamos em condições de, com segurança e realismo, definir um novo compromisso: em 2010, 45% de toda a electricidade consumida terá por base energia renovável. Esta meta colocará Portugal na linha da frente das energias renováveis, fazendo do nosso País, a par da Áustria e da Suécia, um dos três Países europeus que mais apostam nesta área.

Medidas

— manter um ritmo elevado na instalação de potência eólica, modernizar com novos equipamentos os parques eólicos já instalados e simplificar o seu processo de licenciamento, o que faremos já amanhã com a aprovação de um Decreto-Lei em Conselho de Ministros.

aposta muito forte nos biocombustíveis, definindo também aqui uma nova meta: em 2010, 10% do total de combustível gasto nos transportes deverá ser biocombustível. Desta forma, anteciparemos em 10 anos o objectivo da União Europeia.
aposta (continuada) no biogás, na biomassa, mas também em todas tecnologias emergentes, como é o caso da energia das ondas. Amanhã mesmo aprovaremos em Conselho de Ministros a criação de uma zona-piloto, em S. Pedro de Moel, para a instalação de projectos experimentais na energia das ondas.

Energia hídrica: a questão crítica

Portugal é um dos países com maior potencial hídrico por explorar. Não só 54% do nosso potencial hídrico está por aproveitar, como, paradoxalmente, somos um dos países em que menos cresceu a capacidade hídrica instalada nos últimos trinta anos.

Por outro lado, a energia hídrica é complementar da aposta que estamos a fazer na energia eólica. Crescer na eólica sem crescer na hídrica não faz sentido. Pela simples razão de que a produção de energia eólica durante a noite só pode ser aproveitada recorrendo ao armazenamento que as barragens permitem.

Devemos, por isso, aumentar rapidamente a nossa produção hídrica (reforçando) a capacidade de produção (…) em três barragens: Picote, Bemposta e Alqueva.

E… aumentar nos próximos anos o ritmo de construção de barragens novas. Vamos, por isso, elaborar um plano global de barragens, identificando todos os locais com potencial hidro-eléctrico, plano esse que será submetido a uma avaliação ambiental estratégica. No total, deveremos atingir mais 1300 MW de potência hídrica, boa parte dos quais ainda durante o período de cumprimento de Quioto.

Redução de emissões

Mas não basta aumentar a produção de energia limpa. É preciso reduzir as emissões.

Encerramento de centrais: Central de Tunes, a gasóleo, e dois grupos da Central do Carregado, a fuel, encerrarão definitivamente já em 2008. A Central do Barreiro, a fuel, encerrará em 2010. E também em 2010 as restantes centrais a fuel entrarão num regime de funcionamento zero, mantendo-se apenas para casos de emergência.

Até 2010, as nossas centrais a carvão irão substituir entre 5% e 10% do carvão aí queimado por biomassa ou resíduos, permitindo reduzir as emissões até 1 milhão de toneladas de CO2 por ano.

Eficiência energética

Mas temos também que apostar em melhorar a eficiência energética da nossa economia. E quero anunciar, neste domínio, algumas novas medidas, que nos permitirão cumprir as metas de Quioto.

um programa de micro-geração, por forma a democratizar a produção de electricidade, tornando-a acessível a todos. Qualquer um de nós, na sua própria casa, poderá ser, não só consumidor, mas também produtor de electricidade, vendendo à rede aquilo que não consumir.

regime de compras públicas ecológicas. As compras do Estado são um instrumento eficaz para induzir eficiência energética nos fornecedores e no Estado, sobretudo nos domínios dos transportes e dos edifícios.

ponderação ambiental no Imposto Automóvel. No ano passado, introduzimos uma componente ambiental de 10% neste imposto. Quero anunciar-vos que, já a partir do próximo dia 1 de Julho, será 30% e, a partir de 1 de Janeiro de 2008, esta percentagem subirá para 60%. Portugal estará assim na linha da frente dos países que adoptaram a eficiência ambiental como critério decisivo na taxação do automóvel.

Fiscalidade ecológica

incentivo à aquisição de lâmpadas de baixo consumo, taxando mais as lâmpadas incandescentes, que duram menos tempo e gastam 80% mais energia.

Manter a liderança europeia nas alterações climáticas

As alterações climáticas serão a problemática global mais marcante dos próximos anos. Creio que este conjunto de medidas dará um novo e forte impulso à redução de emissão de gases com efeito de estufa, à redução da nossa dependência energética, ao incremento da investigação e desenvolvimento e colocará Portugal em linha com os países mais avançados no combate ao aquecimento global.

Portugal, durante a presidência portuguesa da União Europeia, desempenhará uma posição de destaque na condução da política europeia neste domínio. A XIII Convenção ONU das Alterações Climáticas, que se realizará em Bali, será o momento para afirmar a União Europeia como o bloco político de vanguarda neste tema e liderar as negociações que permitam o arranque de um novo regime climático.

Comunicação integral de José Sócrates à Assembleia da República.

As alterações climáticas e o parlamento português

Sistema Europeu de Informação s/ Fogos Florestais
Dia: 2006-10-14 (previsão p/ 3 dias)

Assembleia da República convida a sociedade civil a debater alterações climáticas e estratégias de mitigação.
Passei a manhã e parte da tarde de 10 de Outubro de 2006 enfiado no novo auditório do parlamento português. As leis que ali se discutem são cada vez mais subsidiárias da produção seminal do Parlamento Europeu. Da transposição “in extremis” para o nosso edifício legislativo das leis de Estrasburgo tem dependido a melhoria de um país indisciplinado, onde o maior obstáculo à contemporaneidade continua a ser o elevado grau de analfabetismo funcional (fraca escolaridade básica e secundária), o péssimo hábito de depender de miraculosas mesadas externas (coisa que vem pelo menos desde o século XV e ainda não terminou…) e a persistência de um sistema de poder endogâmico irresponsável, muito dado às mordomias e à falta de ética. A ausência generalizada de civismo e o flagelo burocrático são alguns dos corolários inevitáveis destes males. Já não escarramos tanto na via pública como dantes, mas continuamos a estacionar em cima dos passeios, a obstruir as garagens e a estacionar alegremente em todas as esquinas que nos aparecem pela frente.

A promoção de uma discussão pública sobre as alterações climáticas no auditório da Assembleia da República é pois uma boa notícia. Fará parte da nova estratégia de transparência e abertura dos órgãos do poder à sociedade? Se sim, não poderei deixar de saudá-la. O tema inagural — que fazer perante as alterações climáticas em curso? — não poderia ser mais oportuno. O auditório encheu…

Das seis intervenções da manhã, destacaria apenas duas, pela sua concisão e relevância: a de Arturo Gonzalo Aizpiri, Secretário-Geral para a Prevenção da Contaminação e das Alterações Climáticas do ministério espanhol do ambiente, e a de Isabel Guerra, auditora de ambiente do Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações.

O primeiro fez uma exposição muito clara sobre a estratégia espanhola para o ambiente. Retive duas ideias: que não comprometerão as suas metas económicas essenciais aos limites de emissões de CO2 decorrentes do Protoclo de Quioto (tendo já constituído uma reserva financeira para aquisição de direitos de emissão a países terceiros), mas que nem por isso deixarão de diminuir rápida e drasticamente a sua extrema dependência energética dos combustíveis fósseis importados (85%). Para tal, a Espanha levará a cabo uma profunda revolução no sistema de transportes, tendo em vista diminuir a importância dos transportes rodoviários e aéreos relativamente à ferrovia e aos transportes marítimos, promovendo, por outro lado, um conjunto de medidas destinadas a mitigar decididamente a dependência do consumo energético de origem carbónica por parte dos chamados “sectores difusos” (transportes, edifícios e sector terciário). Paineis solares térmicos e fotovoltaicos serão generalizados de forma apoiada, mas imperativa, ao longo desta e da próxima década em todas as cidades espanholas.

Maria Isabel Guerra deu conta do Programa Nacional para as Alterações Climáticas (PNAC, 2006), destacando não apenas alguns aspectos essenciais do diagnóstico e das medidas a implementar, mas ainda, o que não deixa de ser particularmente relevante, a sua característica inter-ministerial e ainda o facto de ter sido implementada uma metodologia de controlo e verificação de resultados.

Finalmente no plano das visões mais acutilantes, críticas e propositivas deste encontro destacaria a notabilíssima intervenção do Prof. Eduardo Oliveira Fernandes (Responsável da Unidade de Estudos Avançados de Energia no Ambiente Construído, da Universidade do Porto), e a militância quase colérica de Carlos Pimenta. O primeiro, não apenas mostrou até que ponto a nossa extrema dependência energética do exterior e das energias de origem fóssil é um factor de grande insegurança nacional, como sublinhou ainda o muito que há fazer no campo da eficiência energética (os chamados negawatts), antes de nos deixarmos levar pelo canto das sereias nucleares e das OPAs. 60% da energia transportada perde-se no labirinto da ineficiência energética, da falta de visão económica e da incompetência política (as palavras são minhas)… O segundo, foi sobretudo corajoso na defesa da necessidade de construir a barragem do Sabor como medida de precaução extrema absolutamente defensável na perspectiva da defesa estratégica da bacia do Douro (objectivamente ameaçada pelas medidas de salvaguarda hidrológica implementadas e em fase de implementação pelos espanhóis na parte que lhes pertence do rio comum).

Não ouvi as primeiras intervenções da tarde. Mas ouvi as que encerraram o encontro. Nota triste: a lenga-lenga dos deputados que ali aterraram para exibirem os respectivos leques partidários, sem que nada de substancial saísse daquelas mentes de eleição (talvez na próxima vez tragam a lição estudada e nos dêem a conhecer quais são efectivamente as posições dos partidos sobre questões tão importantes como as que neste primeiro encontro foram discutidas). Nota feliz: não esperava de Jaime Gama, o presidente da Assembleia da República, uma intervenção tão lúcida sobre o mérito da conferência, e em particular a sua plena consciência dos efeitos devastadores que as alterações climáticas, se não forem mitigadas, poderão ter sobre a nossa própria sobrevivência como país, nação e estado. Subestimei-o.

Resumindo: há uma boa percepção técnica dos problemas; sabe-se que os interesses cegos, egoístas e irresponsáveis do sector estão em pleno movimento browniano, mas desconhece-se se há pensamento económico sobre o assunto; ou se os políticos (nomeadamente este governo) terão a coragem de agir atempadamente e defendendo em primeiro lugar o interesse nacional. O sucesso da União Europeia depende e muito de três tipos de dialécticas: a que vai de cima para baixo (do geral para o particular); a que vai de baixo para cima (do particular, i.e. do estado-nação, da cidade, da freguesia, para o geral) e a que se desenvolve segundo a topologia das redes rizomáticas. Muito em breve a lógica “top down” actualmente hegemónica (e estúpida) do sector energético dará lugar a uma rebelião sem precedentes das novas matrizes de produção e partilha energética à semelhança do que ocorreu na tecnosfera da redes informáticas. Em 1994 tentei avisar um dos patrões lusitanos da comunicação social sobre o tremendo abalo que a sua indústria iria sofrer. Disse-lhe que a webcast iria comer literalmente o broadcast. Ele não me ligou nenhuma. Os resultados estão à vista e ainda vão piorar, para ele, claro! Basta meditar nos 1300 milhões de euros desembolsados anteontem pela Google para adquirir a You Tube , uma empresa web criada em 2005 para partilhar vídeos à escala global. Pois bem, o aviso aos distraídos do sector energético é este: esqueçam a ideia de controlo e comecem rapidamente a pensar em rizomas energéticos livres e cooperantes. Se não o fizerem, acreditem, serão comidos, literalmente, pelos rizomas mini, micro e nanotecnológicos em gestação… em menos de década e meia! — AC-P

Clima em debate

Alterações Climáticas na Assembleia da República - Lisboa

Conferência Internacional sobre Alterações Climáticas
org.: Comissão de Poder Local, Ambiente e Ordenamento do Território
Terça-Feira, 10 de Outubro 2006

Auditório do Edificio Novo da Assembleia da República

Inscrição livre: <comissao.7a-CPLAOT@ar.parlamento.pt>

Horário: 10.00 ate 13.00 e 15.00 até 18.30
Sessões:
## Os sinais e as previsões de alterações climáticas;
## As políticas públicas de mitigação das alterações climáticas;
## A necessidade de adaptação as alterações climáticas;
## O protocolo de Quioto como Factor de Desenvolvimento Tecnológico.

Lester R. Brown

São Miguel, Açores

Plano B 2.0

Prefácio

O Plano A, business as usual, mantém o mundo num caminho ambiental que está a conduzir ao declínio económico e a um eventual colapso. Se a nossa meta é assegurar o progresso económico, não temos alternativa senão escolher outro caminho – o Plano B. Esta é a razão pela qual escrevi o Plano B original, em 2003.
Há muitas razões para termos actualizado e expandido esta edição de 2003, apresentando o Plano B 2.0. A mais importante é que ainda não há uma consciência suficientemente difundida e partilhada de que temos que construir uma nova economia – e, ainda menos, uma visão sobre como será essa economia. O objectivo deste livro é fazer uma defesa convincente da necessidade de construir a nova economia, dar uma visão mais detalhada sobre como ela será e oferecer um roteiro que nos indique o caminho para lá chegar.
Há muitas outras razões para esta nova edição. Um, há novas provas seguras de que o modelo económico ocidental não funcionará na China. Dois, o fornecimento cada vez mais escasso de petróleo levanta novas e inquietantes questões que merecem atenção. Três, uma vez que a pobreza não pode ser erradicada se os sistemas naturais de apoio continuarem a deteriorar-se, incluímos também aqui um orçamento de restauração da Terra em complemento do orçamento de erradicação da pobreza incluído na primeira edição. Quatro, os avanços tecnológicos dos últimos anos perspectivam novas e excitantes possibilidades de inverter as tendências ambientais que estão a pôr em causa o nosso futuro. E, cinco, queríamos simplesmente fazer uma nova edição devido à inesperada resposta entusiástica que primeira teve.
Para desenvolver o primeiro destes pontos, a China já alcançou os Estados Unidos no consumo dos recursos mais básicos. Entre os principais bens essenciais do sector alimentar (grãos e carne), do sector energético (petróleo e carvão) e da economia industrial (aço), a China já está à frente dos Estados Unidos no consumo de todos menos do petróleo.
Que acontecerá se a China alcançar os Estados Unidos no consumo per capita? Se a economia da China continuar a crescer 8 por cento ao ano, o seu rendimento per capita atingirá o nível actual dos EUA em 2031. Se assumirmos que os níveis de consumo per capita chinês em 2031 serão os mesmos que os dos Estados Unidos hoje, então a população de 1.450 mil milhões de habitantes prevista para o país consumiria uma quantidade de cereais igual a dois terços da colheita mundial actual, o seu consumo de papel seria o dobro da actual produção mundial e o consumo de petróleo seria de 99 milhões de barris por dia – muito acima da produção mundial actual de 84 milhões de barris.
O modelo económico ocidental não poderá funcionar na China. Nem funcionará na Índia, que em 2031 se prevê que venha a ter uma população ainda maior que a da China, nem para os outros três mil milhões de pessoas dos países em vias de desenvolvimento que também sonham o “sonho americano”. E numa economia mundial cada vez mais integrada, onde todos os países competem pelo mesmo petróleo, grãos e recursos minerais, o modelo económico existente também não funcionará para os países industrializados. A economia baseada nos combustíveis fósseis, centrada no automóvel, e do desperdício, tem os dias contados.
Relacionado de perto com o crescimento do consumo de recursos na China está a situação, em rápida mudança, do petróleo e as novas questões que isso levanta. Por exemplo, temo-nos vindo a preocupar há muito com o efeito da subida dos preços do petróleo nos custos da produção alimentar, mas o efeito é ainda mais preocupante na procura de bens essenciais alimentares. Uma vez que praticamente tudo o que comemos pode ser convertido em combustível automóvel, quer em destilarias de etanol quer em refinarias de biodiesel, os preços altos do petróleo estão a abrir um novo e vasto mercado para os produtos agrícolas. Os compradores de bens essenciais para os produtores de combustíveis estão a competir directamente com a indústria alimentar pelos fornecimentos de trigo, milho, soja, cana-de-açúcar e outros produtos alimentares. De facto, os supermercados e as estações de serviço competem agora pela obtenção dos mesmos bens essenciais.
O preço do petróleo está a determinar o preço da alimentação simplesmente porque se o valor para combustível de um bem essencial exceder o seu valor para a alimentação, então esse bem será convertido em combustível. À medida que cada vez mais destilarias de etanol e refinarias de biodiesel são construídas, os proprietários afluentes de automóveis deste mundo estarão a competir com os pobres do mundo pelos mesmos bens essenciais.
No Plano B original, tínhamos um orçamento para erradicar a pobreza, mas se os sistemas ambientais de suporte da economia entrarem em colapso, a erradicação da pobreza não será possível. Se as terras de cultivo estiverem em erosão e as colheitas a diminuir, se os níveis dos lençóis freáticos estiverem a baixar e os poços a secar, se as terras de pasto se estiverem a transformar em desertos e o gado estiver a morrer, se os bancos de peixe estiverem em colapso, se as florestas estiverem a encolher, e se o aumento das temperaturas estiverem a queimar as colheitas, um programa de erradicação da pobreza – por muito bem que seja concebido e implementado – não terá sucesso.
Por esta razão, acrescentámos um orçamento de restauração da Terra para recuperar a sua saúde produtiva e viabilizar o orçamento para a erradicação da pobreza. Ele inclui os custos de proteger e restaurar solos, florestas, terras de pasto e bancos de peixe oceânico, para além da conservação da diversidade biológica no planeta. Também contempla a necessidade de parar o avanço dos desertos que ameaça deslocar milhões de pessoas.
Finalmente, as boas notícias – e outra razão para actualizar o Plano B – são que as novas tecnologias dão uma esperança quanto à forma como lidar com os crescentes desafios com que nos deparamos na frente ambiental. Por exemplo, os avanços nos carros híbridos a gasolina e electricidade e na concepção de turbinas eólicas criaram as condições para a evolução de uma nova economia do combustível automóvel. O uso de híbridos a gasolina e electricidade com uma bateria extra de armazenamento com capacidade de ligação à rede eléctrica permite-nos fazer deslocações de automóvel em distâncias curtas essencialmente à base de electricidade. Se combinarmos isto com o investimento em parques eólicos para fornecer electricidade barata à rede, podemos fornecer, em grande medida, energia aos automóveis com energia do vento. Usar electricidade barata gerada pelo vento para recarregar as baterias durante as horas de menor consumo de electricidade custa o equivalente à gasolina a 50¢ por galão! Este é apenas um exemplo das possibilidades que existem de construir uma nova economia, que possa sustentar o progresso económico e, ao mesmo tempo, poupar dinheiro, reduzir a dependência do petróleo e reduzir as emissões de carbono.
Também nos inspirámos para o Plano B 2.0 com a resposta extraordinária que teve a primeira edição. Olhando para a nossa base de dados de vendas vários meses após a publicação, verificámos que muitas pessoas que tinham encomendado inicialmente uma cópia voltaram a encomendar 5, 10, 20, até 50 ou mais cópias para oferecerem a colegas, a líderes de opinião, líderes políticos e outros.
Em resposta a isto, formámos uma Equipa do Plano B com pessoas que encomendaram 5 ou mais cópias. Essa equipa tem agora cerca de 650 pessoas. Ted Turner, que comprou 3.569 cópias para distribuir a chefes de estado, ministros, CEOs das empresas da Fortune 500, Congresso dos EUA e outros, foi designado capitão da equipa. Com a Equipa do Plano B agora constituída, na altura em que surge esta revisão expandida, contamos aumentar o seu número de membros de modo a que em breve haja milhares de pessoas a promover activamente este plano para salvar a nossa civilização.
Há uma crescente onda de público preocupado com a direcção que o mundo leva e uma crescente consciência de que temos que mudar o rumo. O aumento do preço do petróleo e a crescente competição por este recurso estão a alimentar esta preocupação. O mesmo acontece com as várias manifestações da alteração climática, tais como a fusão do gelo e o aumento do nível do mar. Quando o Furacão Katrina deixou no seu rasto uma conta de 200 mil milhões de dólares – quase sete vezes mais que qualquer outra tempestade anterior – isso enviou uma mensagem para o mundo inteiro.
É o aumento da preocupação pública que em breve pode começar a virar o processo de criação de políticas na direcção certa, uma direcção que ponha o mundo num caminho ambiental que sustente o progresso económico.
Pode ser feito o download gratuito deste livro a partir do nosso Web site. Para obter autorização para imprimir ou extrair partes do manuscrito, contactar Reah Janise Kauffman no Earth Policy Institute.

Lester R. Brown
Outubro de 2005


Plano B 2.0
Lester R. Brown
Edição Portuguesa: Câmara Muncipal de Trancoso, 2006
Por ocasião de: As Origens do Futuro
Encontro Internacional do Tribunal Europeu do Ambiente 2006
Trancoso, 26, 27 e 28 de Outubro de 2006.

Download gratuito do livro PLANO B 2.0, de Lester Brown (em Português):
— no sítio web d’o Grande Estuário (PDF/ficheiro ZIP: 1,5Mb)
— secção de downloads do Portal de Trancoso, em www.portaldetrancoso.net