Category Archives: Biomassa

A tragédia dos biocombustíveis

Girassol

A OCDE, mais célere do que é costume, alerta para a inevitável tragédia dos biocombustíveis.

“Government support for biofuels will cause food shortages and lead to the destruction of natural habitats – while making little impact on climate change, warned the Organisation for Economic Cooperation and Development (OECD), delivering a blow to EU plans to obtain 10% of its transport fuel from plants by 2020.

Even in the ‘best-case scenario’, biofuels will only be able to achieve a 3% reduction in energy-related CO2 emissions by 2050, thus failing to reduce petroleum fuel consumption, states a new report by the OECD.

The study, which is to be presented to ministers and government experts from the OECD’s 30 member states on 11-12 September, adds that even this small benefit would come at a huge cost because “without subsidies, most biofuels cannot compete on price with petroleum products in most regions of the world”.

It explains that in the US, for example, around $7 billion is spent each year on support to ethanol, so that each tonne of carbon dioxide that is avoided in fact costs over $500 in taxpayers’ money. In the EU, the cost could be up to ten times higher, add the authors.

The report criticises current government policy bias towards biofuels, saying that subsidies and tariff-protection measures will drive land owners to divert land from food or feed production to the production of energy biomass, thereby driving up food prices.”

Como já deveria ser do domínio público comum, se as indústrias agro-energéticas pagarem mais por um litro de óleo de girassol, de colza, de palma, de soja, de milho, de beterraba açucareira, de mamona, de babaçu, de trigo ou de arroz (!), para fazer um qualquer biocombustível “verde”, do que as indústrias agro-alimentares, pelo mesmo litro de óleo, teremos forçosamente, e a passos largos, um planeta transgénico a desenhar OGMs altamente produtivos, resistentes e bio-assassinos especializados na produção de combustíveis biológicos. Para que tal aconteça, será preciso que milhões de pessoas morram à fome, por manifesta incapacidade de pagar os altos preços dos bens alimentares mais básicos, como o pão e as farinhas em geral, a água, o açucar e a proteína animal mais barata do mercado: a carne de frango. Este fenómeno já começou a criar sérios problemas sociais em países como o México, problemas sociais esses que tenderão a espalhar-se como um verdadeiro rastilho assim que a actual crise económica mundial der lugar ao dominó das falências em massa de empresas e instituições financeiras.

Na Europa, se não travarem a Monsanto, a Dupont, e em greal os lóbis da biotecnologia agressiva junto da União Europeia, bem como os discursos mediáticos patéticos dos pseudo-cientistas corruptos, os OGMs serão empregues em larga escala no aumento da produtividade dos espécies oleaginosas destinadas, quer à produção de rações para a pecuária e aquicultura, quer para a produção de biocombustível.

Veja-se o que está a acontecer em Espanha com os milhos transgénicos, com a colza e com o girassol. Tendo os lunáticos ministros que temos na agricultura, na economia e no meio-ambiente, não tardaremos mais de um ou dois anos a importar alegremente a receita espanhola do desastre ecológico mais sério para que a península ibérica está a caminhar: a destruição dos seus solos agrícolas em consequência da exploração intensiva dos mesmos, não em nome da vida e das necessidades humanas, mas apenas da especulação bolsista e da corrupção.

O governo português estabeleceu a incorporação 10% de biocombustíveis na gasolina e no óleo diesel até 2010, uma meta que é quase o dobro dos 5,75% definidos pela União Europeia (UE). Porquê? Com que argumentos? De onde vem a matéria-prima?

Tanta coisa que a malta do Bloco de Esquerda poderia discutir em vez de se auto-consumir no albergue espanhol do seu passado jurássico.

Post scriptum: sobre este mesmo tema vale ainda a pena ler o “OECD-FAO Agricultural Outlook – 2007-2016”, de que transcrevo alguns extractos do sumário em português.

OECD-FAO Agricultural Outlook – 2007-2016
Perspectivas Agrícolas da OAA da OCDE: 2007-2016 (PDF)

• Actualmente, os preços fortes obtidos no mercado mundial por muitas matérias-primas de origem agrícola no comércio internacional devem-se, em grande medida, a factores de natureza temporária como sejam insuficiências na oferta relacionadas com a seca e baixas reservas. Mas alterações estruturais como o aumento da procura de matéria-prima para a produção de biocombustíveis e a redução de excedentes em consequência de reformas de políticas anteriores poderão vir a manter os preços acima dos níveis de equilíbrio históricos durante os próximos 10 anos.

• Preços das matérias-primas mais elevados são uma preocupação especial para os países em desenvolvimento que são importadores líquidos de alimentos, bem como para as camadas mais pobres das populações urbanas e trarão à mente o debate continuado sobre a questão de “comida versus combustível”. Para além disto, ao mesmo tempo que preços mais altos da matéria-prima para a produção de biocombustíveis suportam os rendimentos dos produtores dessa matéria-prima, eles implicam custos mais elevados e rendimentos mais baixos parapara os produtores que usam a mesma matéria-prima como forragem para animais.

• (…)

• O uso cada vez maior de cereais, açúcar, oleaginosas e óleos vegetais para satisfazer os requisitos de uma indústria de biocombustíveis em rápido crescimento é um dos principais factores impulsionadores da previsão. Durante o período de previsão, serão usadas quantidades substanciais de milho nos EUA, trigo e colza na UE e açúcar no Brasil para a produção de etanol e biodiesel. Isto está a manter os preços das culturas e, indirectamente através de custos mais altos para as forragens, também os preços dos produtos animais.

• Dado que na maior parte dos países das zonas temperadas a produção de etanol e de biodiesel não é economicamente viável sem apoio, uma combinação de tecnologias da produção, políticas relativas a biocombustíveis e preços do petróleo bruto diferentes daqueles que se presumem nesta previsão poderia levar a preços mais baixos que os projectados na previsão.

 oGE 17:30, 23:51, 17 Setembro 2007
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Portugal sustentável?

[25/01/07] O primeiro ministro português anunciou no parlamento que “em 2010, 45% de toda a electricidade consumida terá por base energia renovável. Esta meta colocará Portugal na linha da frente das energias renováveis, fazendo do nosso País, a par da Áustria e da Suécia, um dos três Países europeus que mais apostam nesta área.

Este anúncio traduz uma importante aceleração das políticas energéticas e de mitigação dos impactos nocivos das emissões de CO2 e de outras substâncias nocivas para a atmosfera. Trata-se efectivamente de um conjunto de medidas que poderão ter importantes efeitos reprodutivos na estagnada economia lusitana, e que por isso merece a maior atenção dos diversos actores da vida económica, social e política do país.

Vale pois a pena ler o essencial da comunicação de José Sócrates à Assembleia da República:

Energias renováveis

Em 2005, Portugal foi o País da União Europeia que mais cresceu na capacidade de produção de energia eólica. Em 2006 tivemos o segundo maior crescimento, tendo entrado em funcionamento 36 novos parques eólicos, o que significa um crescimento de 60% da potência instalada. E, para que fique bem evidente o ritmo deste crescimento, basta dizer que desde que o actual Governo entrou em funções já foi instalada mais potência eólica do que nos oito anos anteriores.

Mas não foi apenas na energia eólica que progredimos. Licenciámos 8 novas centrais de ciclo combinado. Lançámos 13 concursos para centrais de biomassa. Hoje mesmo, serão conhecidos os resultados das candidaturas para a produção de biocombustíveis. E está em construção a maior central solar do mundo, em Moura.

O Governo já tinha uma meta para 2010 muito exigente: 39% de renováveis. Com o ritmo que imprimimos, estamos em condições de, com segurança e realismo, definir um novo compromisso: em 2010, 45% de toda a electricidade consumida terá por base energia renovável. Esta meta colocará Portugal na linha da frente das energias renováveis, fazendo do nosso País, a par da Áustria e da Suécia, um dos três Países europeus que mais apostam nesta área.

Medidas

— manter um ritmo elevado na instalação de potência eólica, modernizar com novos equipamentos os parques eólicos já instalados e simplificar o seu processo de licenciamento, o que faremos já amanhã com a aprovação de um Decreto-Lei em Conselho de Ministros.

aposta muito forte nos biocombustíveis, definindo também aqui uma nova meta: em 2010, 10% do total de combustível gasto nos transportes deverá ser biocombustível. Desta forma, anteciparemos em 10 anos o objectivo da União Europeia.
aposta (continuada) no biogás, na biomassa, mas também em todas tecnologias emergentes, como é o caso da energia das ondas. Amanhã mesmo aprovaremos em Conselho de Ministros a criação de uma zona-piloto, em S. Pedro de Moel, para a instalação de projectos experimentais na energia das ondas.

Energia hídrica: a questão crítica

Portugal é um dos países com maior potencial hídrico por explorar. Não só 54% do nosso potencial hídrico está por aproveitar, como, paradoxalmente, somos um dos países em que menos cresceu a capacidade hídrica instalada nos últimos trinta anos.

Por outro lado, a energia hídrica é complementar da aposta que estamos a fazer na energia eólica. Crescer na eólica sem crescer na hídrica não faz sentido. Pela simples razão de que a produção de energia eólica durante a noite só pode ser aproveitada recorrendo ao armazenamento que as barragens permitem.

Devemos, por isso, aumentar rapidamente a nossa produção hídrica (reforçando) a capacidade de produção (…) em três barragens: Picote, Bemposta e Alqueva.

E… aumentar nos próximos anos o ritmo de construção de barragens novas. Vamos, por isso, elaborar um plano global de barragens, identificando todos os locais com potencial hidro-eléctrico, plano esse que será submetido a uma avaliação ambiental estratégica. No total, deveremos atingir mais 1300 MW de potência hídrica, boa parte dos quais ainda durante o período de cumprimento de Quioto.

Redução de emissões

Mas não basta aumentar a produção de energia limpa. É preciso reduzir as emissões.

Encerramento de centrais: Central de Tunes, a gasóleo, e dois grupos da Central do Carregado, a fuel, encerrarão definitivamente já em 2008. A Central do Barreiro, a fuel, encerrará em 2010. E também em 2010 as restantes centrais a fuel entrarão num regime de funcionamento zero, mantendo-se apenas para casos de emergência.

Até 2010, as nossas centrais a carvão irão substituir entre 5% e 10% do carvão aí queimado por biomassa ou resíduos, permitindo reduzir as emissões até 1 milhão de toneladas de CO2 por ano.

Eficiência energética

Mas temos também que apostar em melhorar a eficiência energética da nossa economia. E quero anunciar, neste domínio, algumas novas medidas, que nos permitirão cumprir as metas de Quioto.

um programa de micro-geração, por forma a democratizar a produção de electricidade, tornando-a acessível a todos. Qualquer um de nós, na sua própria casa, poderá ser, não só consumidor, mas também produtor de electricidade, vendendo à rede aquilo que não consumir.

regime de compras públicas ecológicas. As compras do Estado são um instrumento eficaz para induzir eficiência energética nos fornecedores e no Estado, sobretudo nos domínios dos transportes e dos edifícios.

ponderação ambiental no Imposto Automóvel. No ano passado, introduzimos uma componente ambiental de 10% neste imposto. Quero anunciar-vos que, já a partir do próximo dia 1 de Julho, será 30% e, a partir de 1 de Janeiro de 2008, esta percentagem subirá para 60%. Portugal estará assim na linha da frente dos países que adoptaram a eficiência ambiental como critério decisivo na taxação do automóvel.

Fiscalidade ecológica

incentivo à aquisição de lâmpadas de baixo consumo, taxando mais as lâmpadas incandescentes, que duram menos tempo e gastam 80% mais energia.

Manter a liderança europeia nas alterações climáticas

As alterações climáticas serão a problemática global mais marcante dos próximos anos. Creio que este conjunto de medidas dará um novo e forte impulso à redução de emissão de gases com efeito de estufa, à redução da nossa dependência energética, ao incremento da investigação e desenvolvimento e colocará Portugal em linha com os países mais avançados no combate ao aquecimento global.

Portugal, durante a presidência portuguesa da União Europeia, desempenhará uma posição de destaque na condução da política europeia neste domínio. A XIII Convenção ONU das Alterações Climáticas, que se realizará em Bali, será o momento para afirmar a União Europeia como o bloco político de vanguarda neste tema e liderar as negociações que permitam o arranque de um novo regime climático.

Comunicação integral de José Sócrates à Assembleia da República.