Monthly Archives: Dezembro 2009

A casa do eco-deputado Alan Simpson

Simpson_MP-ecohouse

Eco-casa do deputado britânico Alan Simpson

Por António Cerveira Pinto

Gostava de saber quantos deputados portugueses têm um sítio web, um blogue, um twitter ou participam sequer em redes sociais de uma forma sistemática. Vou perguntar-lhes um dia destes.

É que para além da disciplina partidária, os deputados deveriam prestar contas regularmente da sua acção, dando-nos a conhecer o que vão fazendo no dia a dia enquanto representantes eleitos pelo povo. Este exercício, além de um dever democrático nas actuais sociedades cibernéticas, potencia a desejável autonomia intelectual e ética de cada um dos membros dos vários partidos representados no parlamento.  O futuro da democracia não pode continuar a depender da abstinência intelectual e de acríticas disciplinas partidárias, perpetuando afinal uma lógica de decisão de cima para baixo, centralista, que pode dever muito ao leninismo, mas em nada abona a favor da saúde e sobretudo da inteligência democráticas.

O exemplo que a seguir divulgamos —o do deputado trabalhista inglês Alan Simpson—, e que se refere à sua activa e comprometida agenda ecológica, deveria inspirar, quanto mais não fosse, os jovens deputados, de todos os partidos, que recentemente ingressaram na Assembleia da República.

Depois da Cimeira de Copenhaga teremos que discutir tim-tim-por-tim-tim o actual Plano Nacional de Acção para a Eficiência Energética. É urgente corrigir a filosofia corporativa que presidiu à respectiva formulação. É urgente libertar a política nacional de eficiência energética e adaptação às mudanças climáticas e do paradigma energético, do controlo para fins meramente especulativos e de ganho indevido por parte das grandes empresas, dos seus lóbis e das suas conhecidas antenas partidárias. Precisamos de uma verdadeira parceria entre a cidadania e o Estado, entre o público e o privado, em vez da captura do Estado por uma burguesia burocrática indolente, oportunista e corrupta, acolitada frequentemente por políticos corruptos de A a Z.

Faith Hope and Chaos

Alan Simpson MP provides a brilliant conceptual and practical roadmap for shifting hearts, minds, and actions towards an energy revolution that will set the world on fire.

… One way or another the energy company will have to understand that their future is going to be found in shifting to decentralized energy systems. Households and communities will be their real partners and stakeholders; not shareholders strewn across the world. In future, the dividends will go back to local communities.  The truth about this revolution is that this is where we started from.

Our first energy company was born in 1817 at the corner of Water Street, Manchester.  It was founded by a clearly Trotskyist organization, known as the Manchester Police Commissioners. They put a gas lamp outside the police station on the corner of Water Street.  People came from miles around to look at this flickering lamp.  People would gaze up at it and say, “It’s marvellous, marvellous, but it’ll never catch on.”  Within ten years this had become the Manchester Gas and Water Company.  It was at the beginning of an era, from 1817 to 1890, when across the land, you saw towns and cities developed their own municipal gas, water and electricity companies.

Within ten years, Manchester’s had become the source of energy security and water security for the whole of the city.  Over the following 50 years, the proceeds of the company built parks, libraries, swimming pools and museums as part of the social dividend that went along with energy and water security.

What we forget is that these companies were driven by us and funded by local bonds; municipal bonds into which people put their pensions and savings, because they were a secure savings pot along with a ‘quality of life’ bonus that came every year.

We have become so mesmerised by today’s global casino economy. We are still being told that this is the only way that we can give ourselves secure pension prospects; throwing our pension contributions into precisely the same casino that squandered most of them over the past decade. What we have to do is make the intellectual break to give ourselves a different future. It is absolutely true that all of this is within our reach.

Published by Institute of Science in Society (ler artigo completo aqui)

Sítio web do deputado inglês Alan Simpson

Eco-casa do deputado inglês Alan Simpson

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A bolha verde

Depois do petróleo, venha o CO2!

The Story of Cap & Trade from Story of Stuff Project on Vimeo.

“The overwhelming evidence is that the European Trading Scheme is retarding rather than driving emission drops.”Gar Lipow.

Por António Cerveira Pinto

Os mesmos ogres (Goldman Sachs) do Capitalismo suicida que imaginaram as bolhas especulativas, ou melhor dito, as pirâmides Ponzi conhecidas por dot-com bubble e Subprime mortgage crisis querem agora que os governos de todo o mundo se precipitem para a super bolha que promete acabar de vez com a civilização tal qual a conhecemos.

Com o cândido hino ao combate às alterações climáticas provocadas pelas emissões de gases com efeito de estufa, os ogres da Goldman Sachs já convenceram os piratas de grande parte dos governos mundiais a fazer duas coisas: atacar com novas taxas e auditorias energéticas (para inglês ver), a generalidade das populações e, por outro lado, criar um gigantesco mercado de especulação em volta da negociata dos créditos de CO2.

O resultado deste estratagema será, antes de a super bolha explodir (numa III Guerra Mundial?), aumentar ainda mais a actual produção de gases com efeito de estufa, sobretudo oriundos do carvão e do petróleo, mas reservando tal consumo apenas para os países, grupos económicos e classes sociais com capacidade económica para acompanhar a inflação exponencial do direito de poluir, em detrimento de quem não puder pagar no futuro os exorbitantes custos das licenças de emissão de CO2 cotadas em Wall Street, Frankfurt e Xangai.

Ainda vamos porém a tempo de desmascarar mais este embuste, fazendo nomeadamente recuar a União Europeia perante o que se afigura ser um crime de incalculáveis consequências!

O escândalo em volta do chamado Climategate (1) veio subitamente suscitar uma discussão pública, mais detalhada sobre as ameaças efectivas que pesam sobre a humanidade, fruto das asneiras que tem feito e deixado fazer, mas também mais exigente no que toca às medidas que os poderes públicos (e sobretudo privados!) têm vindo a tentar implementar sorrateiramente sob a capa de uma boa acção. O fiasco da presença abortada de Al Gore na Cimeira de Copenhaga é simultaneamente um aviso e uma oportunidade para discutirmos com mais seriedade e precisão a inadiável estratégia de mitigação dos efeitos nefastos do actual paradigma energético e de desenvolvimento e de descoberta e implementação de uma nova filosofia de vida para os humanos, que obviamente recupere a noção panteísta da indivisibilidade da Natureza!

REFERÊNCIAS

  1. Ler também o Guião anotado do filme (PDF) de Annie Leonard, The Story of CAP & TRADE
  2. “Curry: On the credibility of climate research”, by Steve McIntyre on November 22nd, 2009 (Climateaudit)
  3. “‘It’s Not the Kind of Thing Where You Can Compromise’ – Climate scientist James Hansen talks about global warming, Copenhagen, and his new book.” (Newsweek)
  4. “Climate Gate. Estes são os emails que incendiaram Copenhaga” (i)
  5. Durban Group for Climate Justice
  6. Tina Seeley, “U.S. Fossil-Fuel Subsidies Twice That of Renewables” (Update2) ,
    Sept. 18 (Bloomberg) — “Fossil fuels including oil, natural gas and coal received more than twice the level of subsidies that renewable energy sources got from the U.S. government in fiscal 2002 through 2008, the Environmental Law Institute said.”
  7. ‘Enron’s Other Secret’ : “The climate-change industry — the scientists, lawyers, consultants, lobbyists and, most importantly, the multinationals that work behind the scenes to cash in on the riches at stake — has emerged as the world’s largest industry. Virtually every resident in the developed world feels the bite of this industry, often unknowingly, through the hidden surcharges on their food bills, their gas and electricity rates, their gasoline purchases, their automobiles, their garbage collection, their insurance, their computers purchases, their hotels, their purchases of just about every good and service, in fact, and finally, their taxes to governments at all levels.”
  8. ‘How soon do we need to cut greenhouse gas emissions?,’ Grist, January 25 2009.
  9. Gar Lipow, “Cap-and-trade: filling up the political space that should be used for real solutions,” Grist, May 31, 2009

Estratégia “UE 2020”

Dubai em chamas

Dubai em “chamas”.

O Tratado de Lisboa tem hoje, dia 1 de Dezembro, na capital portuguesa, a sua aprovação final e definitiva.

Foi um processo atribulado e com resultados muito mitigados, cuja solidez será decisivamente testada ao longo da presente recessão mundial. Há quem diga que o lançamento há dias da Estratégia “UE 2020”, uma iniciativa correctiva de Durão Barroso, é já o resultado das insuficiências ideológicas congénitas do Tratado de Lisboa. É caso para dizer que a situação actual não se resolve com social-porreirismos!

As tendências proteccionistas vão-se desenvolvendo candidamente, por entre juras de fidelidade ao “Laissez Faire, Laissez Passer!” que o neoliberalismo de casino fez explodir naquela que poderá ser a maior bolha especulativa de sempre.  A nova Pirâmide de Ponzi, apenas muito maior e mais sofisticada do que o velho estratagema da Dona Branca, foi baptizada com o pomposo nome Credit Default Swap (CDS). Este instrumento é uma “engenharia financeira criativa” (para não dizer, especulativa e  fraudulenta) inventada pela Goldman Sachs, em 1997, para supostamente dar protecção aos empréstimos realizados com dinheiro de investidores, nomeadamente institucionais e sociais (Fundos Soberanos e Fundos de Pensões, entre outros). O Mercado de Derivados foi o mar onde toda esta falsa actividade financeira prosperou, levando à falência, em primeiro lugar, das actividades económicas produtivas, com particular  destaque para o sector industrial norte-americano e europeu (obrigado a emigrar para o Oriente sob a formidável pressão da lógica neoliberal da Globalização); e em segundo, do sector regulamentado do sistema financeiro: bancos, seguradoras, boa parte dos fundos de investimento e da poupança privada. Apenas dois meta-bancos (JP Morgan e Goldman Sachs), a economia chinesa e alguns paraísos fiscais parecem estar —para já— a salvo do insondável buraco negro em que se transformou o Mercado de Derivados e os seus letais CDS!

Tudo isto era previsível e foi previsto a tempo e horas. Sucede, porém, que a conspiração para ocultar a realidade foi mais forte, e só quando o colapso em dominó começou a rolar é que os economistas da praxe acordaram. O principal problema do actual modelo económico mundial é o inevitável declínio do paradigma energético em que assentou a modernidade e o progresso industriais. Tudo decorre, de uma forma ou doutra, do Pico Petrolífero, anunciado por M. King Hubbert em 1956. O próprio relatório sobre os Limites do Crescimento, produzido em 1972 para o Clube de Roma, correlaciona o súbito declínio populacional da humanidade, por volta de 2020-2050, como uma variável do abuso sistémico dos equilíbrios naturais do planeta e da exaustão de uma infinidade de recursos estratégicos, sem os quais a vida humana se verá dificultada em extremo (falta de água potável, destruição dos rios, erosão dos solos orgânicos, contaminação química e biológica das cadeias alimentares, poluição do ar, desflorestação de grandes áreas do planeta, etc.)

Os Estados Unidos e a Europa reagiram a estas previsões de forma meramente reactiva. Trataram, assim, de se aproximarem ainda mais das fontes energéticas e de matérias primas disponíveis, recorrendo para tal à chantagem económico-financeira, à pressão diplomática e ao conflito militar não provocado sobre os países produtores de energia e matérias-primas essenciais (Iraque, Irão, Nigéria, Angola, Chile, Argentina, Brasil, Vietname, etc.)

Por outro lado, trataram de exportar lentamente as suas indústrias para os países onde o trabalho era substancialmente mais barato, desprotegido e livre de imposições ambientais, gerando por esta via, desde meados da década de 1970, uma tendência estrutural para a falta de empregos produtivos nos países ricos e até industrializados da América e da Europa. O preço desta loucura foi o desenvolvimento de uma espiral de endividamento público e privado sem precedentes, quer na Europa, quer sobretudo nos Estados Unidos.

O crescimento nestas partes outrora prósperas do planeta passou a ser medido, cada vez mais, com base nos índices de investimento e de… consumo! Esqueceram-se os economistas de alertar as populações sobre o perigo desta falsificação estatística grosseira. Investimento e consumo são despesas que como tal têm que ser financiadas. Se não houver produção, ou esta começar a decair de forma estrutural, haverá menos exportações e mais importações, ou seja, uma erosão progressiva da poupança que houver nos bolsos dos cidadãos, das empresas e dos estados. Nenhuma economia interna, por maior que seja (como se está agora a verificar no colapso gravíssimo dos EUA), pode resistir por muito tempo a um desequilíbrio da sua balança de transacções comerciais e financeiras com o os países de que depende para comprar e vender. Aquilo a que hoje assistimos incrédulos é, pura e simplesmente, a explosão em cadeia da maior bolha de endividamento que alguma vez se formou na economia mundial.

O assunto não poderia ser mais sério e grave.

Daí que valha a pena olhar com atenção para a mais recente tentativa de corrigir um Tratado de Lisboa mesmo antes de este entrar em vigor! A nossa participação no debate público europeu suscitado pela Estratégia “UE 2020”, que ante-sucede precocemente ao próprio Tratado de Lisboa que hoje é finalmente consagrado, será sempre importante, e sobretudo deverá dar início a um verdadeiro movimento de cidadania crítica europeia de base, sem a qual o próprio sonho comunitário se poderá em breve transformar num pesadelo.

Comissão Europeia lança consulta pública. Data limite: 2010-01-15 (Link)

Nova estratégia para transformar a UE num mercado social mais inteligente e mais verde.

A Comissão Europeia lança uma consulta sobre a estratégia para a “UE 2020”.

Tendo como base um documento de trabalho, a Comissão Europeia quer saber a sua opinião sobre o modo como a União Europeia deve reagir e trabalhar para a consolidação da retoma após a crise.

Objectivo

Esta consulta permitirá a todos os interessados manifestarem a sua opinião sobre os três principais pontos do documento da Comissão Europeia, a saber:

  • Criar valor baseando o crescimento no conhecimento
    — A educação na Europa deve ser melhorada, do pré-escolar ao ensino superior, para aumentar a produtividade, apoiar os grupos vulneráveis e combater as desigualdades e a pobreza
  • Capacitar as pessoas em sociedades inclusivas
    — A crise veio alterar as “regras do jogo”. Muitos postos de trabalho que existiam antes da crise foram destruídos e não voltarão a ser criados
  • Criar uma economia competitiva, interligada e mais verde
    — No futuro assistiremos a preços da energia elevados, a restrições em matéria de emissões de carbono e a uma maior concorrência em relação aos recursos e aos mercados

—António Cerveira Pinto