D. Sebastião da Ota

Ota sob pesado nevoeiro
Ota, 31 de Dezembro de 2005. Consegue ver a pista? Os pilotos também não!

A possibilidade de existir um grande hub aeroportuário em Portugal está a esfumar-se rapidamente no horizonte… das Low Costs. Em primeiro lugar, porque os voos intercontinentais, de e para a Europa, têm os seus principais hubs em Londres, Frankfurt, Paris, Amesterdão, Bruxelas, Zurique… Madrid, para onde as Low Costs nos levam por preços imbatíveis. Em segundo lugar, porque a capital espanhola tenderá a absorver a maioria do tráfego intercontinental de e para a península ibérica, à medida que a malha de aeroportos Low Cost cresce e incrementa exponencialmente as ligações ponto a ponto (sem ruptura de carga) no espaço europeu, e à medida também que a rede ferroviária de alta velocidade for ganhando terreno em Espanha e Portugal (2013-2015), fazendo de Madrid, não só a grande metrópole, mas também o grande hub ferroviário e aeroportuário da península. Em terceiro lugar, porque os Estados Unidos parecem condenados a enveredar por uma quarentena proteccionista, o que deitará por terra algumas das actuais dimensões da chamada globalização e enfraquecerá irremediavelmente, pelo menos no horizonte de uma ou duas décadas, a importância económica do Atlântico.

O principal argumento para a necessidade do novo aeroporto internacional de Lisboa — a saturação da Portela — caíu assim pela base:

— serão as Low Cost, e não as companhia de bandeira, as principais responsáveis pelo aumento e sobretudo pela mudança radical do padrão do negócio aeroportuário no nosso país e na Europa no decurso das próximas décadas;
— o novo paradigma aeroportuário emergente em toda a Europa é incompatível com mega-estruturas de apoio caras e pode, pelo contrário, adaptar-se facilmente a estruturas pré-existentes (aeródromos), desde que disponha ou possa vir a dispor rapidamente de pistas com 2500 metros;

Base Aerea do Montijo
Montijo: a melhor plataforma Low Cost para Lisboa.

— o novo paradigma aeroportuário consegue aumentar o número diário de movimentos nos grandes aeroportos sem contribuir para a saturação dos mesmos (pois pode operar fora dos intervalos onde se acumula a maioria dos slots mais disputados);
— como qualquer passageiro que voa num operador convencional sabe, as ligações entre voos fazem invariavelmente perder mais de uma hora nas passadeiras, lojas e bares dos aeroportos, o que supõe uma disponibilidade óbvia para o uso dessa mesma hora na deslocação entre um aeroporto Low Cost e o seu destino final (por exemplo, o centro de uma cidade), aumentando o raio de acção da Portela, por exemplo, até Évora, no caso de ser muito complicado adaptar a base militar do Montijo ou o aeródromo de Tires para o efeito. O TGV Lisboa-Madrid-Lisboa demorará meia hora entre Évora e Lisboa!
— as ligações aéreas Lisboa-Porto-Lisboa deixarão de fazer sentido económico assim que o actual Alfa pendular passe a circular (como pode e deveria!) a 220-230 Km/h, percorrendo a distância entre estas cidades em 1h45mn ou 1h30mn, consoante faça ou não paragem em Coimbra e Aveiro. Nem sequer precisamos de uma linha AV neste trajecto. Basta chamada velocidade elevada: EV.

Em suma, o crescimento natural do Aeroporto Internacional de Lisboa, face ao paradigma emergente do transporte aéreo (Low Cost) e face à impossibilidade de implementar um verdadeiro hub intercontinental no nosso país, deve pois recorrer, em primeiro lugar, à melhoria e expansão do aeroporto da Portela, e em segundo, a uma ou mais das seguintes alternativas, diferenciadas e rapidamente acomodáveis: Montijo, Tires (sobretudo para os corporate jets) e Évora.

Aerodromo Municipal de Evora
Como em Paris-Beauvais, Frankfurt-Hahn e Barcelona-Girona…

Em vez de sonhos sebastiânicos, como aquele que procura legitimar o pesadelo da Ota, quase sempre servindo a ganância de muito poucos e a miséria da maioria, deveríamos dar os muitos pequenos passos que ajudariam a diminuir o lamentável atraso económico, social e cultural que nos separa cada vez mais, já não só da Europa, mas dos nossos vizinhos mais chegados.

É urgente compilar o livro negro da Ota e forçar o poder a explicar-se sobre esta matéria. Antes que seja tarde demais!


Referências
Ver os dois últimos PDFs de Rui Rodrigues sobre o previsível efeito low cost no panorama aeroportuário português:
Voos de Baixo Busto e Alta Velocidade
Aeroportos de Low Cost
Originalmente publicado em O António Maria #157 29 DEZ 2006

2 responses to “D. Sebastião da Ota

  1. 1- Os voos transoceânicos não são low cost (é o mercado chave de British Airways, Ibéria ou Lufthansa) e requerem grandes aeroportos para aterrar um Airbus 360. P. ex.: London Heathrow, Madrid Barajas ou o Internacional de Frankfurt.

    2- Os voos low cost são só a nível europeu (é o mercado chave de Ryanair ou Easyjet) e utilizam aeroportos de menor relevância como London Stansted, Santander ou o Roma Ciampino.

  2. Lisboa não é considerada por ninguém uma porta principal de entrada na Europa, pelo que não poderá transformar-se, em condições normais, num verdadeiro Hub intercontinental. A sua vocação maioritária é, por conseguinte, a Europa (mais de 60% do tráfego aéreo de passageiros). Ora é precisamente aqui que a porca torce o rabo, face ao rápido crescimento das Low Cost. Estas são imbatíveis em termos de preço, e a prática já demonstrou que este factor sobreleva todos os outros (salvo o da segurança, que n está em causa). Ou seja, Portela remodelada, Montijo, Sintra e Évora, entre outras alternativas possíveis, são incomparavelmente vantajosas face à estuporada Ota, para onde nenhuma Low Cost voará…

    Veja-se notícia de hoje no Diário Económico.
    Aviação 2007-01-04 15:25
    Rotas portuguesas representaram 1,6% do tráfego de passageiros da Ryanair em 2006
    A Ryanair transportou 40,5 milhões de passageiros durante o ano de 2006, dos quais cerca de 655 mil nas rotas portuguesas, o que significa cerca de 1,6% do tráfego da low cost, que no Porto já é a segunda maior companhia, depois da TAP, e em Faro ocupa a 13ª posição, de acordo com a informação divulgada hoje pela companhia. — Tiago Silva com PressTur

    AC-P

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