Lester R. Brown

São Miguel, Açores

Plano B 2.0

Prefácio

O Plano A, business as usual, mantém o mundo num caminho ambiental que está a conduzir ao declínio económico e a um eventual colapso. Se a nossa meta é assegurar o progresso económico, não temos alternativa senão escolher outro caminho – o Plano B. Esta é a razão pela qual escrevi o Plano B original, em 2003.
Há muitas razões para termos actualizado e expandido esta edição de 2003, apresentando o Plano B 2.0. A mais importante é que ainda não há uma consciência suficientemente difundida e partilhada de que temos que construir uma nova economia – e, ainda menos, uma visão sobre como será essa economia. O objectivo deste livro é fazer uma defesa convincente da necessidade de construir a nova economia, dar uma visão mais detalhada sobre como ela será e oferecer um roteiro que nos indique o caminho para lá chegar.
Há muitas outras razões para esta nova edição. Um, há novas provas seguras de que o modelo económico ocidental não funcionará na China. Dois, o fornecimento cada vez mais escasso de petróleo levanta novas e inquietantes questões que merecem atenção. Três, uma vez que a pobreza não pode ser erradicada se os sistemas naturais de apoio continuarem a deteriorar-se, incluímos também aqui um orçamento de restauração da Terra em complemento do orçamento de erradicação da pobreza incluído na primeira edição. Quatro, os avanços tecnológicos dos últimos anos perspectivam novas e excitantes possibilidades de inverter as tendências ambientais que estão a pôr em causa o nosso futuro. E, cinco, queríamos simplesmente fazer uma nova edição devido à inesperada resposta entusiástica que primeira teve.
Para desenvolver o primeiro destes pontos, a China já alcançou os Estados Unidos no consumo dos recursos mais básicos. Entre os principais bens essenciais do sector alimentar (grãos e carne), do sector energético (petróleo e carvão) e da economia industrial (aço), a China já está à frente dos Estados Unidos no consumo de todos menos do petróleo.
Que acontecerá se a China alcançar os Estados Unidos no consumo per capita? Se a economia da China continuar a crescer 8 por cento ao ano, o seu rendimento per capita atingirá o nível actual dos EUA em 2031. Se assumirmos que os níveis de consumo per capita chinês em 2031 serão os mesmos que os dos Estados Unidos hoje, então a população de 1.450 mil milhões de habitantes prevista para o país consumiria uma quantidade de cereais igual a dois terços da colheita mundial actual, o seu consumo de papel seria o dobro da actual produção mundial e o consumo de petróleo seria de 99 milhões de barris por dia – muito acima da produção mundial actual de 84 milhões de barris.
O modelo económico ocidental não poderá funcionar na China. Nem funcionará na Índia, que em 2031 se prevê que venha a ter uma população ainda maior que a da China, nem para os outros três mil milhões de pessoas dos países em vias de desenvolvimento que também sonham o “sonho americano”. E numa economia mundial cada vez mais integrada, onde todos os países competem pelo mesmo petróleo, grãos e recursos minerais, o modelo económico existente também não funcionará para os países industrializados. A economia baseada nos combustíveis fósseis, centrada no automóvel, e do desperdício, tem os dias contados.
Relacionado de perto com o crescimento do consumo de recursos na China está a situação, em rápida mudança, do petróleo e as novas questões que isso levanta. Por exemplo, temo-nos vindo a preocupar há muito com o efeito da subida dos preços do petróleo nos custos da produção alimentar, mas o efeito é ainda mais preocupante na procura de bens essenciais alimentares. Uma vez que praticamente tudo o que comemos pode ser convertido em combustível automóvel, quer em destilarias de etanol quer em refinarias de biodiesel, os preços altos do petróleo estão a abrir um novo e vasto mercado para os produtos agrícolas. Os compradores de bens essenciais para os produtores de combustíveis estão a competir directamente com a indústria alimentar pelos fornecimentos de trigo, milho, soja, cana-de-açúcar e outros produtos alimentares. De facto, os supermercados e as estações de serviço competem agora pela obtenção dos mesmos bens essenciais.
O preço do petróleo está a determinar o preço da alimentação simplesmente porque se o valor para combustível de um bem essencial exceder o seu valor para a alimentação, então esse bem será convertido em combustível. À medida que cada vez mais destilarias de etanol e refinarias de biodiesel são construídas, os proprietários afluentes de automóveis deste mundo estarão a competir com os pobres do mundo pelos mesmos bens essenciais.
No Plano B original, tínhamos um orçamento para erradicar a pobreza, mas se os sistemas ambientais de suporte da economia entrarem em colapso, a erradicação da pobreza não será possível. Se as terras de cultivo estiverem em erosão e as colheitas a diminuir, se os níveis dos lençóis freáticos estiverem a baixar e os poços a secar, se as terras de pasto se estiverem a transformar em desertos e o gado estiver a morrer, se os bancos de peixe estiverem em colapso, se as florestas estiverem a encolher, e se o aumento das temperaturas estiverem a queimar as colheitas, um programa de erradicação da pobreza – por muito bem que seja concebido e implementado – não terá sucesso.
Por esta razão, acrescentámos um orçamento de restauração da Terra para recuperar a sua saúde produtiva e viabilizar o orçamento para a erradicação da pobreza. Ele inclui os custos de proteger e restaurar solos, florestas, terras de pasto e bancos de peixe oceânico, para além da conservação da diversidade biológica no planeta. Também contempla a necessidade de parar o avanço dos desertos que ameaça deslocar milhões de pessoas.
Finalmente, as boas notícias – e outra razão para actualizar o Plano B – são que as novas tecnologias dão uma esperança quanto à forma como lidar com os crescentes desafios com que nos deparamos na frente ambiental. Por exemplo, os avanços nos carros híbridos a gasolina e electricidade e na concepção de turbinas eólicas criaram as condições para a evolução de uma nova economia do combustível automóvel. O uso de híbridos a gasolina e electricidade com uma bateria extra de armazenamento com capacidade de ligação à rede eléctrica permite-nos fazer deslocações de automóvel em distâncias curtas essencialmente à base de electricidade. Se combinarmos isto com o investimento em parques eólicos para fornecer electricidade barata à rede, podemos fornecer, em grande medida, energia aos automóveis com energia do vento. Usar electricidade barata gerada pelo vento para recarregar as baterias durante as horas de menor consumo de electricidade custa o equivalente à gasolina a 50¢ por galão! Este é apenas um exemplo das possibilidades que existem de construir uma nova economia, que possa sustentar o progresso económico e, ao mesmo tempo, poupar dinheiro, reduzir a dependência do petróleo e reduzir as emissões de carbono.
Também nos inspirámos para o Plano B 2.0 com a resposta extraordinária que teve a primeira edição. Olhando para a nossa base de dados de vendas vários meses após a publicação, verificámos que muitas pessoas que tinham encomendado inicialmente uma cópia voltaram a encomendar 5, 10, 20, até 50 ou mais cópias para oferecerem a colegas, a líderes de opinião, líderes políticos e outros.
Em resposta a isto, formámos uma Equipa do Plano B com pessoas que encomendaram 5 ou mais cópias. Essa equipa tem agora cerca de 650 pessoas. Ted Turner, que comprou 3.569 cópias para distribuir a chefes de estado, ministros, CEOs das empresas da Fortune 500, Congresso dos EUA e outros, foi designado capitão da equipa. Com a Equipa do Plano B agora constituída, na altura em que surge esta revisão expandida, contamos aumentar o seu número de membros de modo a que em breve haja milhares de pessoas a promover activamente este plano para salvar a nossa civilização.
Há uma crescente onda de público preocupado com a direcção que o mundo leva e uma crescente consciência de que temos que mudar o rumo. O aumento do preço do petróleo e a crescente competição por este recurso estão a alimentar esta preocupação. O mesmo acontece com as várias manifestações da alteração climática, tais como a fusão do gelo e o aumento do nível do mar. Quando o Furacão Katrina deixou no seu rasto uma conta de 200 mil milhões de dólares – quase sete vezes mais que qualquer outra tempestade anterior – isso enviou uma mensagem para o mundo inteiro.
É o aumento da preocupação pública que em breve pode começar a virar o processo de criação de políticas na direcção certa, uma direcção que ponha o mundo num caminho ambiental que sustente o progresso económico.
Pode ser feito o download gratuito deste livro a partir do nosso Web site. Para obter autorização para imprimir ou extrair partes do manuscrito, contactar Reah Janise Kauffman no Earth Policy Institute.

Lester R. Brown
Outubro de 2005


Plano B 2.0
Lester R. Brown
Edição Portuguesa: Câmara Muncipal de Trancoso, 2006
Por ocasião de: As Origens do Futuro
Encontro Internacional do Tribunal Europeu do Ambiente 2006
Trancoso, 26, 27 e 28 de Outubro de 2006.

Download gratuito do livro PLANO B 2.0, de Lester Brown (em Português):
— no sítio web d’o Grande Estuário (PDF/ficheiro ZIP: 1,5Mb)
— secção de downloads do Portal de Trancoso, em www.portaldetrancoso.net

4 responses to “Lester R. Brown

  1. É possível fazer o download gratuito do livro PLANO B 2.0 de Lester Brown (em Português), na secção de downloads do Portal de Trancoso, em http://www.portaldetrancoso.net

    Cumprimentos,

  2. Assunto Macro-econômico de importância capital para o mundo na área da Economia Política Global.

  3. CICERO FCO SAMPAIO

    COMO POSSO PARTICIPAR E AJUDAR TRABALHANDO NESSA EQUIPE DO PLANO B?

    • Em primeiro lugar, mil desculpas pela resposta tardia! Em segundo, e respondendo à sua pergunta, tudo depende dos seus interesses e aptidões. Uma possível forma de colaborar é escrever neste blogue, fazendo, por exemplo, recensões (em Português) sobre sítios, blogues, revistas e livros relacionados com temas ambientais, energéticos, redes sociais, etc… Ab/ oGE

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