Energia verde, ou tragédia?

[14 Jul 2006] — Lester R Brown afirma na newsletter do Earth Policy Institute de 13 de Julho que o grão necessário para encher o depósito de um SUV (Sport-Utility Vehicle) com etanol chega para alimentar uma pessoa durante um ano. E o grão necessário para atestar o mesmo tanque duas vezes por mês ao longo de um ano chegaria para alimentar 26 pessoas no mesmo período.

Os Estados Unidos fornecem 70% das exportações mundiais de milho, o principal cereal utilizado actualmente (55 milhões de toneladas em 2006) nas mais de 100 distilarias em funcionamento para produzir etanol, um dos chamados combustíveis verdes em alta nos mercados de substituição dos cada vez mais caros gasóleo e gasolina tradicionais (oriundas do petróleo).

As consequências do uso do milho, da cana do açucar, do trigo, do arroz, do óleo de palma e de outros óleos vegetais — alguns dos produtos alimentares sob a pressão do sector dos combustíveis — , à medida que o preço do petróleo e do gás natural continuarem a subir, vão ser catastróficas. Em primeiro lugar, em todos os países e grupos sociais que dependem criticamente da importação e do consumo destes alimentos. Depois, na subida generalizada do preço dos bens alimentares. Os cereais servem para alimentar directamente as pessoas, mas servem também para alimentar a carne e o peixe que comemos. Isto é, desviar o seu uso para a produção de etanol, em nome de uma civilização automóvel condenada, apenas contribuirá para o efeito autocatalizador da dinâmica implosiva do actual modelo civilizacional. Reciclar os óleos usados na produção de combustíveis é uma boa medida de mitigação dos efeitos catastróficos da espiral altista dos preços do petróleo e do gás natural. Relançar os transportes colectivos terrestres, fluviais e marítimos, urbanos, inter-urbanos, regionais, nacionais e internacionais a uma escala sem precedentes é a única medida capaz de minorar os efeitos trágicos da implosão de um parque automóvel privado, desprovido de recursos financeiros para a sua utilização, e de um sistema de transportes aéreos igualmente condenado. Desenhar, preparar e declarar um Estado de Emergência Energética (ou mais latamente, de um Estado de Emergência Ecológica), visando a implementação de medidas de eficiência energética radicais e de gestão dos recursos globalmente considerados, parece-me a única estratégia com a capacidade de minorar os enormes danos económicos, sociais, políticos e humanitários que advirão da longa crise energética em que estamos todos metidos.

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