Estrago da Nação

Farpas Verdes CCVI

O conceito de modernidade em Portugal é, por vezes, confundido com propostas arrojadas que, a mais das vezes, constituem um chorrilho de delírios disparatados. Vem isto a propósito de um «estudo» proposto por, segundo uma notícia do jornal Público de ontem, um grupo de arquitectos, engenheiros do ambiente e artistas para uma Lisboa do ano2030. O nome do estudo em si mesmo já é algo alucinante: «O Grande Estuário 2030: Uma Cidade sem Petróleo». Alucinante e contraditório: propõe, desde logo, uma expansão enorme da malha urbana da Grande Lisboa suportada não em mais uma, mas sim mais duas pontes.

Em seguida, dizem os autores que como Lisboa está envelhecida, atrofiada e incapaz de oferecer «alternativas credíveis às novas tensões urbanísticas» (não sei o que isto quer dizer…), a solução passa por crescer para sul. Depois, no meio disto, surge também a proposta para uma candidatura para os Jogos Olímpicos de 2020, um aeroporto no Montijo (embora se saiba que tecnicamente e por motivos de segurança, esta não é uma solução válida) e o mais que certamente estará no estudo, mas que a notícia não refere.

Se algum dos autores deste «estudo» olhasse para as dinâmicas demográficas da Grande Lisboa, olhasse para as finanças do país, olhasse para a necessidade de reabilitar Lisboa e conter a suburbanização, porventura teria gasto melhor o seu tempo, propondo verdadeiras e exequíveis medidas para a tal Lisboa sem petróleo do ano 2030.

Em resposta a este post num blog ambientalista ESTRAGO DA NAÇÃO gostaria de esclarecer o seguinte:

Necessidade de Reabilitar Lisboa Estamos completamente de acordo. Isso deverá ser feito criando condições para a fixação de população no centro, para que deixe de funcionar das 9 ás 5. Não é com a situação actual que conseguimos ser uma cidade competitiva. Ao ter uma área metropolitana com quase 30% da população nacional, com previsões de chegar a quase 50% nos próximos 25 anos, não podemos aceitar que entrem todos os dias na cidade -maioritariamente em transporte privado- 2/3 da população. É prioritário estabelecer uma política eficaz de mobilidade pública como complemtento de uma re-activação do centro. Um exemplo? Barcelona, onde tive o prazer de morar e trabalhar durante seis anos.

Conter a Suburbanização É uma necessidade urgente. Gostava de saber qual é a sua proposta para isto. Para mim o conceito de Suburbanidade implica movimentos pendulares diários com todas as consequências dai resultantes. Isso é de evitar. Como? Através duma descentralização e expansão do centro. Lisboa apenas pode ser competitiva a nível europeu se consolidar uma estrutura metropolitana para acolher com dignidade os seus 4 milhões de habitantes. não podemos continuar a pensar que o suburbio existe como dormitório de uma meia-centralidade absurda. Temos que reforçar as centralidades locais (Amadora, Loures, Almada, Barreiro, etc.) de modo a permitir que uma estrutura policêntrica responda às necessidades da futura região metropolitana de Lisboa.

Jogos Olímpicos São apenas um meio para se atinjir um fim. É necessário algum objectivo Supra-local de modo a criar as condições necessárias a uma infra-estruturação sustentável da região. Os Jogos Olímpicos é um destes exemplos. Não acredito num delírio como o Euro2004 que apenas nos deixou como legado 10 campos de futebol que não tem interesse estratégico nem prático. Poderiamos pensar no tema dos Jogos, ou num Fórum das Religiões, ou outra grande intervenção que tenha a capacidade de regenerar tecidos urbanos.

Aeroporto no Montijo As propostas que apresentamos são feitas com base em investigações feitas por nós. Acreditamos que deverá na Margem Sul. A transformação de uma Base Aérrea Militar é uma das opções. A mais realista é em Rio Frio. Como tudo, estas opiniões são passiveis de contradição. Neste caso estamos a dialogar com Faulenbach Airport Consulting, que nos aportou alguma informação “lobby-free” que lhe pode interessar.
:: http://antoniomaria.typepad.com/oge/2005/05/novos_aeroporto.html ::

Finanças do País O estado da nação é de facto o grande problema que nos impede de melhorar. No entanto, se continuarmos a esbanjar oportunidades de investimento estrangeiro em Portugal não sairemos nunca do buraco que nós próprios cavamos. O caso do Parque Solar nas minas de S.Domingos é disso exemplo. E muitos outros devem existir. Temos capacidade para que 70% da nossa energia possa ser de fontes limpas, mas importamos 86.2% da nossa energia, (64,2% é petróleo). Podemos fazer uma conta simples: o Barril de Brent aumentou entre 2001 (24.9$usd) e 2005 (47.1$usd) o que dá uma média de 4.4$usd ao ano. Como as nossas importações de Crude são anualmente de 110 milhões de Barrris de Petróleo, significa que nos últimos 5 anos gastamos 488.4 milhões de dólares apenas para conseguir manter o nível de consumo, sem contar com o crescimento económico. Acho que ambos concordamos que seria melhor gastar em programas sociais, educação, saúde, investigação, etc.
:: http://antoniomaria.typepad.com/oge/2005/05/parque_solar_na.html ::

Gostaria de acrescentar que a problemática da falta de petróleo não tem apenas consequências na nossa mobilidade. Importamos 85% da nossa alimentação, que é transportada usando fontes de energia fóssil. Imagina o impacto nos preços ou na variedade? Utilizamos também Petróleo como matéria prima para um sem fim de plásticos e outros produtos quimicos. Consegue imaginar a sua vida sem computador ou sem telemóvel?

Para finalizar, quero dizer que esta é a nossa visão estratégica para “o Grande Estuário”. Estou certo que haverá outras. Gostava que a sociedade civil fosse mais activa de modo a haver discussão e começar a mostrar ao poder politico que estes temas também são de nossa responsabilidade. Não adianta escrever sobre as coisas, mas sim começar a formalizar propostas e estar abertos e receptivos ao diálogo. Portugal não precisa de mais “Velhos do Restelo” a defender e a fazer oposição demagógica.

Atentamente,
Carlos Sant’Ana

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